A serpente está longe de ser considerada hoje como tipo de astúcia. Ela entra aqui mais pela sua forma do que pelo seu caráter, como alusão à perfídia dos maus conselhos, que se insinuam como a serpente e da qual, por essa razão, muitas vezes o homem nem desconfia. Aliás, se a serpente, por haver enganado a mulher é que foi condenada a rastejar, dever-se-á deduzir que antes esse animal tinha pernas; mas, neste caso, já não era serpente. Por quê, então, impor à fé ingênua e crédula das crianças, como verdades, alegorias tão evidentes, e que, falseando o julgamento delas, faz que mais tarde venham a considerar a Bíblia como uma colcha de fábulas absurdas.
?lém disso, deve-se notar que o termo hebreu nâhâsch, traduzido por serpente, vem da raiz nâhâsch, que significa: fazer encantamentos, adivinhar as coisas ocultas, podendo, pois, significar: encantador, adivinho. Com esta acepção, ele é encontrado na própria
Gênesis 44:5-15, a propósito da taça que José mandou esconder no saco de Benjamin: “A taça que roubaste é a mesma em que meu Senhor bebe e de que se serve para adivinhar (nâhâsch). [8] – Ignoras que não há quem me iguale na ciência de adivinhar (nâhâsch)?”. – No livro
Números 23:23: “Não há encantamentos (nâhâsch) em Jacó, nem adivinhos em Israel”. Em consequência, a palavra nâhâsch tomou também a significação de serpente, réptil que os encantadores tinham a pretensão de encantar, ou de que se serviam em seus encantamentos.
A palavra nâhâsch só foi traduzida por serpente na versão dos Setenta – os quais, segundo Hutcheson, corromperam o texto hebreu em muitos lugares – versão essa escrita em grego no segundo século da era cristã. As inexatidões dessa versão resultaram, sem dúvida, das modificações que a língua hebraica sofrera no intervalo transcorrido, visto que o hebreu do tempo de Moisés era uma língua morta, que diferia do hebreu vulgar, tanto quanto o grego antigo e o árabe literário diferem do grego e do árabe modernos. [9]
É, pois, provável que Moisés tenha apresentado como sedutor da mulher o desejo indiscreto de conhecer as coisas ocultas, suscitado pelo espírito de adivinhação, o que concorda com o sentido primitivo da palavra nâhâsch, adivinhar, e, por outro lado, com estas palavras “Deus sabe que, logo que houverdes comido desse fruto, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses. – Ela, a mulher, viu que era cobiçável a árvore para compreender (leaskil) e tomou do seu fruto”. Não se deve esquecer que Moisés queria proscrever de entre os hebreus a arte da adivinhação praticada pelos egípcios, tanto é que proibiu os primeiros de interrogar os mortos e o Espírito Píton. (O Céu e o Inferno, Primeira Parte, cap. XI.)