Nas Pegadas do Mestre

CAPÍTULO 105

Quantidade e qualidade



"Voltando-se Jesus para a grande multidão que o acompanhava, disse: Quem não colocar minha doutrina acima do pai, mãe, irmão, mulher e filhos e até da própria vida, não pode ser meu discípulo. Aquele que não transportar a sua cruz e não renunciar a tudo quanto tem, tão-pouco pode ser meu discípulo. Pois qual de vós, querendo construir uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas da despesa, para ver se tem com que acabar a obra? E Isto para não acontecer que, após haver lançado os alicerces, e não a podendo acabar, dê ensejo a ser escarnecido, dizendo-se: Aquele homem começou a construir e não pôde acabar. "


(Evangelho.)

Por aqui se vê que Jesus não se preocupava com o número avultado de prosélitos que porventura se reunissem em torno do ideal que anunciava. Ele queria homens compenetrados, convencidos e perfeitamente cônscios dos seus deveres, e da grande responsabilidade que assumiam perante Deus em suas próprias consciências. Pouco se lhe dava que a turba-multa inconsciente e curiosa que o seguia debandasse. A multidão que se move como as vagas impelidas pelo vento é irresponsável. Com a facilidade com que se entusiasma num momento dado, arrefece também diante do primeiro obstáculo a remover.

Jesus não pretendia arrebatar, mas convencer. Não hipnotizava atuando sobre os sentidos por meio de aparatosos ritualismos: dirigia-se à razão, falava aos corações.

Jamais intentou granjear adeptos iludindo-os com falazes promessas. Salientou bem as dificuldades que teriam a vencer, e precisou com a máxima clareza as condições que deveriam preencher os que quisessem ser seus discípulos. Não ocultou a escabrosidade do carreiro. Comparou-o mesmo com a trajetória do Calvário, determinando que cada um deve levar sua cruz, se quiser segui-lo.

Para ser ainda mais claro, aconselhou aqueles que pretendessem seguir-lhe as pegadas a medirem primeiramente suas forças, assim como o homem que, tendo em vista construir uma obra, deve balançar previamente seus haveres para evitar ridículos insucessos.

O verdadeiro Cristianismo, portanto, não se interessa pela quantidade, mas sim pela qualidade.