No mesmo ano de sua desencarnação, Allan Kardec ditou algumas mensagens que foram logo publicadas na “Revue Spirite”. Em Paris, em 21 de setembro de 1869, ele nos brindou com um precioso enfoque sobre “”, inserido na edição de novembro. Em seus primeiros parágrafos, lemos:
“Há entre todos os homens do mundo moderno um costume digno de elogio, sem a menor dúvida, e que, pela própria força das coisas, logo se verá transformado em norma. Quero vos falar dos aniversários e dos centenários!”
“Uma data célebre na História da Humanidade, seja por uma conquista gloriosa do espírito humano, seja pelo nascimento ou a morte de benfeitores ilustres, cujos nomes estão inscritos em caracteres indeléveis no grande livro da imortalidade, uma data célebre, como disse, vem cada ano lembrar a todos, que somente os que trabalharam para melhorar a sorte de seus irmãos têm direito a todo respeito e a toda veneração.”
Allan Kardec, portanto, consagrou o espírito de rememoração (termo singelo, mais consentâneo com a Doutrina Espírita do que comemoração, dada a retumbância mundana que este esconde). Por isso mesmo, sentimo-nos à vontade para, ao ensejo do seu centenário, rememorarmos alguns acontecimentos alusivos ao Grupo Espírita Regeneração, cuja história se inicia no século V, em Roma, com o nome de Casa dos Benefícios. Nosso propósito, entretanto, se limita à exaltação da figura ímpar de Adolfo Bezerra de Menezes, fundador deste Grupo, em 18 de fevereiro de 1891, e a quem devem ser dirigidas as únicas homenagens cabíveis. Por outro lado, não faríamos justiça se omitíssemos os agradecimentos sinceros a Francisco Cândido Xavier, através de cuja mediunidade abençoada recebemos, nestes últimos anos, as melhores orientações de trabalho, bem como as informações sobre as origens de nossa instituição, os percalços enfrentados no longínquo passado romano e o seu papel no contexto da atualidade. Com isso queremos sublinhar que os dirigentes de hoje, do Grupo Espírita Regeneração, estão conscientes de sua irrelevância, na rememoração do seu centenário, cabendo-nos tão somente expressar nossa gratidão a Bezerra de Menezes, pela oportunidade que nos concedeu de reconstruir a obra impiedosamente aniquilada, naqueles idos bárbaros.
Este livro encerra a história resumida da Casa dos Benefícios (hoje Grupo Espírita Regeneração) e a palavra sábia de Bezerra de Menezes, em trechos selecionados das suas numerosas mensagens, ditadas à guisa de orientação para as nossas tarefas. São aconselhamentos sublimes que, embora dirigidos à nossa instituição, podem ser considerados de ordem universal, servindo de roteiro a todas as criaturas carentes e desorientadas, desejosas de conhecer a verdade e praticar a virtude. Este é o objetivo que nos move, cabendo-nos apenas repetir nossa preocupação de não nos afastarmos da lição de Allan Kardec, no sentido de que “somente os que trabalharam para melhorar a sorte de seus irmãos têm direito a todo respeito e a toda a veneração”. Estamos, pois, rememorando o nosso centenário com o pensamento voltado exclusivamente para Bezerra de Menezes e, evidentemente, o Cristo, diante de quem todos nós, sem exceção, nos apagamos completamente.
Leitor amigo:
Ante os nossos companheiros da Diretoria, que representam, nesta noite, o Primeiro Centenário do Grupo Espírita Regeneração, iniciado por nós, — pequenos servos de Nosso Senhor Jesus Cristo — no Rio de Janeiro, em 1891, agradecendo a tua acolhida e cooperação face as nossas lembranças da comovedora efeméride, ofertamos-te o livro que relaciona as edificações da referida instituição.
E, se nos permites, solicitamos o teu consentimento, para recordar-te:
Quando te sentires de coração amarfanhado, reflete nos milhares de irmãos infelizes, que se desvencilharam, aqui, dos propósitos de suicídio, ouvindo as verdades ensinadas pelo Cristo de Deus, retomando a vida natural que os sofrimentos desequilibraram, quando mais necessitavam de apoio e discernimento; lembra-te dos corações maternos que se refizeram da angústia, neste pouso de amor, aceitando a evidência das provações que o mundo lhes impunha, ante o desaparecimento de filhos queridos, quando esses mesmos filhos enunciavam o feliz futuro dos homens de bem; dos que se reergueram no caminho das lágrimas, depois de injuriados e abatidos pela calúnia e pela crueldade, justamente na ocasião em que mais suplicavam compreensão da justiça terrestre; dos que se reconheceram vencidos por infortúnios indescritíveis, regressando à fé em Deus e ao perdão das ofensas, notadamente, quando mais imploravam o entendimento dos perseguidores gratuitos que lhes arrasaram a existência; dos que choraram, doentes e esquecidos, entre as paredes que mantinham esta casa, endereçando aos Céus as mais fervorosas orações, pedindo a paz e a misericórdia que os homens lhes sonegaram; dos que se viram, portando enfermidades contagiosas e amargas, que vieram até aqui lastimando, no íntimo, as situações que os faziam infelizes, encontrando o bálsamo da confiança em Deus e a luz da esperança que lhes revigoraram as forças; das nossas irmãs injustamente lançadas ao descrédito e ao sarcasmo, apontadas pelo dedo dos que as atiravam ao desespero, no momento em que mais rogavam compaixão e bênção; dos amigos idosos que vieram de perto e de longe, pedindo o auxílio de que necessitavam para sobreviver às crises do desgaste físico e rogando a Deus proteção e socorro para os filhos que os abandonavam às piores necessidades, no instante em que mais se sentiam minados ante a dor causada pelas atitudes dos entes queridos, que mais amavam; recordando as tribulações dos que experimentaram as provas que lhes amarguraram os dias e que durante cem anos vieram a este recanto de fraternidade e serviço, encontrando constantemente a orientação e o consolo para as suas inquietações, em preces que lhes arquivaram os sacrifícios no Mundo Maior.
Sensibilizado, ante as recordações que me assomam ao espírito, sou o pequeno servidor, iluminado agora de alegria, diante do devotamento com que se cultiva aqui o trabalho, o amor ao próximo e a generosidade e mais uma vez te agradecemos a colaboração espontânea, repetindo as nossas humildes palavras: — Amigo, muito obrigado!…
(Mensagem recebida em 31.12.1990.)