As tramas caminhavam da boca dos espias aos ouvidos de Caifás, que programara Sua morte, e intrigas armavam ciladas por toda a parte. Os lábios da inveja se intumesciam e a difamação soprava verberações de ira e maldade, tentando solapar as bases do reino que Ele anunciava.
Impossibilitados de crescer, pelas próprias constrições da miserabilidade pessoal, buscam arrastar para baixo ou aniquilar aqueles que lhes são superiores. Ainda é assim, entre os homens da Terra, na atualidade...
Aqueles eram dias difíceis: evitar Jerusalém e abandonar a Judeia, refugiando-se na Peréia onde era tolerado pelo Tetrarca Felipe ou avançar, arrostando as consequências e dores do gesto ousado.
Aproximavam-se as festas dos Tabernáculos e Jerusalém já estava apinhada: pastores, mercadores, agricultores, lidadores de todas as profissões, estrangeiros e legionários...
Seria necessário avançar e sofrer o testemunho.
Nas festas anteriores sorriam alegrias. Os dias foram álacres e quase juvenis.
Acolhido por Lázaro, que fora arrancado das sombras, e suas irmãs, naquele recanto de ternura o amor fraterno enflorescera suas horas de inefável carinho, na casinha de Betânia com os discípulos... Agora, teria que atravessar o país, deixando Efraim para vencer toda a Galileia e prosseguir no rumo de Jerusalém.
Ele fora informado do nefando conciliábulo contra a Sua vida, realizado no Sinédrio, no sábado anterior, graças à lealdade de Nicodemos. Não receava, porém.
— "Crer-se maior do que Moisés", conspiravam furibundos os inimigos da Verdade.
Astutos e mesquinhos Seus adversários buscavam meios de O perderem.
Suave como um perfume de lavanda no ar da madrugada Ele pairava inatingível.
Todas inúteis as conspirações.
Ele é a luz do mundo e mantém-se clarificador, conquanto se adensem as sombras em sua volta.
Na fronteira entre a Samaria e o distrito sul da Galileia adentrou-se por pequena aldeia, utilizando um caminho áspero pouco usado, seguido pelos companheiros do discipulato, para uma pausa de refazimento.
— "Jesus, Mestre, tem piedade de nós!", cura-nos! (Lucas
Os discípulos por pouco não se evadiram do local, aparvalhados. O espetáculo causava nojo e consternação.
Conquanto aqueles sofredores se quedassem a uma distância de sete côvados (nota
1) como recomendava o Estatuto à Lei, o odor forte e nauseante da carne em putrefação era quase insuportável.
A lepra, desde tempos imemoriais, era a doença mais temida entre todas. O leproso devia apresentar-se como se trouxesse luto: rasgado, desgrenhado, hirsuto, o rosto coberto desde abaixo dos olhos para ocultar as marcas odientas.
Quando caminhava, o leproso devia gritar sempre: "Imundo! Imundo!", para afastar dele os prováveis incautos que se aproximassem.
Não lhes era permitido atravessar os muros das cidades nelas entrando e a infração era punida com 40 açoites.
Só Deus podia fazer-lhe8 algo. Por isso haviam rogado a Jesus, aguardando que Ele fosse enviado de Deus.
— Que quereis que voa faça?
A indagação pairou no ambiente, dulçorosa, como esperança que chega, formosa, após desastre irremissível.
Pareceu que não escutaram. Dominados pela sua Presença, um deles como despertando, grita: Que sejamos curados se quiseres!
Quanta angústia, anseios e dúvidas naquela frase! Quanta perspectiva!
Morreram, sim, eram tidos como mortos, e se se atravessem a perturbar com as suas presenças imundas qualquer homem poderia sem responsabilidades apedrejá-los, até que acabassem de morrer.
Um olhar de infinita compaixão Lhe iluminou a face, levemente pálida, suavemente triste.
Quero! — Uma palavra apenas e o dia exultante de luz e calor, o ar perpassando, o céu azul, indecifrável, espiando.
"Ide mostrar-vos aos sacerdotes" para que eles reconheçam que reentrais na vida...
Mesmo a Natureza espouca num hino de alegria, Eles estremecem e se tocam; olham-se reciprocamente e se fixam nas carnes e nos membros.
Debandam em algaravia, correm em desalinho, gritam...
Os discípulos se entreolham, também, e no peito estrugem emoções inomináveis, indefiníveis.
Acercam-se do Mestre, desejam estreitá-Lo, falar-lhe mil palavras e não podem: as palavras perdem naquele momento qualquer significação...
Tristeza poderosa tolda o rosto do Rabi e Seus lábios se quedam selados.
"Em caminho ficaram limpos. Um deles, vendo-se curado, voltou dando glória a Deus em alta voz e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-Lhe.
Rabi, venho louvar-te. Que devo fazer?
O que recomenda a Lei? Segue-lhe as disposições, cumpre-lhe os impositivos e ritos para que te dêem carta de cura, de reingresso na saúde... O estranho, de joelhos, está comovido e chora.
— Não foram dez os curados? — perguntou emocionado.
A interrogação soluça triste nos ouvidos de todos.
— Por que este samaritano, tido como estrangeiro, somente ele veio agradecer? — redargue, tristonho.
Ninguém respondeu.
O orgulho de raça como o orgulho de qualquer natureza — espinho cruel que dói, incessantemente — cravou-lhes, ferinte, na carne das almas petulantes, enfermas.
Era um doce canto a melodia da Sua voz.
Ante os Seus olhos desfilaram então os ignorados leprosos da alma: aqueles que ocultam nas vestes externas os abismos do coração; os intranquilos, os de vida sórdida, os de conduta infeliz. Os atormentados — atormentadores cresceram na Sua mente e ele fitou a paisagem triste, escassa de vegetação da aldeia humilde, das gentes sofredoras...
Teria de sofrer os homens até alçá-los à felicidade: ajudá-los a libertar-se da cruel lepra moral.
Chamou os amigos e avançou pela senda das dores humanas, amenizando as asperezas dos a quem encontrava, na direção de Jerusalém, até a traição, o julgamento arbitrário, a cruz, a morte, a ressurreição!...
— Não foram dez os curados?! E este voltou só: o estrangeiro, o odiado...
Nota 1: Côvado - Antiga medida de comprimento, equivalente a 66 centímetros.
Notas da Autora espiritual.