Capítulo XVIII

Retrato


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Imaginemos a criatura que traiu a si própria, através da crueldade voluntária ou da delinquência infeliz, relegada à intempérie, tentando, em vão, fugir à espantosa tempestade que lhe ruge na consciência.

Em torno, tudo se veste na sombra difusa que lhe verte da alma, substancializando a noite de angústia em que se lhe acumulam as horas, e, por dentro, vozes terríveis lhe bradam maldição e remorso, atormentando-lhe o imo do próprio ser.

De quando a quando, é o recomeço do drama aflitivo em que estampou na mente os estigmas insidiosos da expiação, revisando todos os atos em que se desvairou na viciação ou no crime e, vezes outras, é a dor do tempo perdido a vazar-se-lhe dos olhos em torrentes de lágrimas.

Para semelhante viajor do grande infortúnio, dia e noite perdem a justa razão de ser, porquanto, em todos os lances da senda espraia-se a sombra que se lhe derrama do seio entenebrecido na culpa…

Eis, porém, que mãos amigas surgem de inopino, a lhe imobilizarem os pés sangrentos, asilando-lhe o pranto amargo no remansoso ninho do coração, em cujo calor se lhe amenizam todas as chagas e se lhe aplacam todos os sofrimentos.

Reconheçamos no símbolo a posição de nosso espírito endividado, quando na luta humana, à frente de nossos pais.

Quase sempre, esses heróis abnegados e anônimos do instituto doméstico arrancam-nos, generosos, ao torvelinho infernal das provações a que nos arrojamos, no espaço hostil e desconhecido, após a morte carnal na Terra.

São eles missionários do berço em que as nossas oportunidades de trabalho se reajustam, os credores de nossa vida e os benfeitores de nossa estrada, juntos de quem todo o ouro do mundo seria escasso ao pagamento de nossa dívida — dívida essa que apenas conseguiremos solver com a luz da abnegação constante no campo do Eterno Amor.




Emmanuel
Francisco Cândido Xavier


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