Alma e Vida
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Sonho e vida
Aquele solo agreste era o lugar remoto Onde vivia a sós o anônimo devoto. Jovem ainda, ele presenciara A cena que jamais olvidaria: O pai apunhalado em agonia Ante o vizinho que o aniquilara Por mínima questão De terra, muro, água e plantação… Depois disso, afirmou no vilarejo Que todo o seu desejo Era buscar Jesus, sem sombras, sem perigos E consagrar-se ao Mestre, inteiramente. Não lhe valeram rogos de carinho Da família que o viu mudado, de repente, Declarava querer o seu próprio caminho E partir com destino ignorado… Avançou e avançou por regiões distantes, Até que se instalou num bosque descampado Que pagou a dinheiro de contado… A não ser velho servo surdo e mudo Que lhe servia a mesa E lhe prestava auxílio em quase tudo, Ninguém mais o avistara, ninguém mais. Vivia em prece pelos matagais E através do silêncio Na paisagem formada em verdura e beleza, Dava-se, vez em vez, à Natureza, Plantando flores, quanto às quais dizia Serem todas ofertadas ao Senhor, A quem se devotara pleno de alegria E profundo fervor. Nas orações de cada dia, após entretecê-las, Fitava o céu da noite, esmaltado de estrelas E falava, em voz alta, implorando a Jesus: — “Revela-me, Senhor, Seja onde for e seja com quem for, A tarefa que eu deva realizar!… Tudo quanto desejo é te honorificar, Em mim, tua vontade é um santo compromisso, Dá-me teu plano, engaja-me em serviço!…” O Tempo desfolhou vinte nove janeiros. O devoto, porém, vivendo solitário, Nunca mais consultou o calendário. dia a dia, o silêncio, a quietude e a oração Em que pedia aos Céus qualquer indicação Do trabalho a fazer; Que aceitaria, enfim, por sagrado dever… Certa noite, no entanto, ele se viu em sonho Encantado e risonho, Numa ilha de paz, no mar do firmamento; Espantado, ele viu, piedoso e atento, Que Jesus vinha vê-lo… Ergue-se para ouvi-lo em recatado zelo E eis que o Mestre lhe diz confiante e amigo: — “Filho, regressa ao lar, terás hoje contigo O encargo que pediste em oração… Um companheiro, em vasta provação, Virá pedir-te amparo e socorro em meu nome; É um pobre delinquente Que tem pago no mundo, asperamente, Os erros dos momentos de loucura. Já sofreu menosprezo, abandono, assalto, desventura… Hoje, é mendigo, um réprobo que erra Nas veredas de lágrimas da Terra, Sem meios de vencer a luta que o consome; Dá-lhe de teu amor, na bênção de teu pão, Ele te rogará consolo ao coração; Mesmo em havendo empeço, ajuda-o mesmo assim, Faze isso, meu filho, em memória de mim…” Reconhecendo em Cristo a presença da Lei, O devoto, extasiado e reverente, Respondeu, claramente: — “Obrigado, Senhor!… Assim farei…” Nisso, ele volta ao corpo… Enlevado, desperta. Manhã clara. Ouve alguém, batendo à porta, Num choro que o agita e desconforta Na morada deserta… Recordando a visão do sonho iluminado, Ergue-se, estremunhado, Lembra Jesus com desvelado amor E pergunta a si mesmo Quem o procuraria No amanhecer daquele dia, Com tanta gritaria e tanta dor… Atônito, ele sai E encontra no infeliz, sem rumo e sem caminho, O antigo desafeto, o impiedoso vizinho Que lhe amargara a vida e lhe arrasara o pai. .Maria Dolores |
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