Caminhos de Volta

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Capítulo XV

A volta de Irmão X


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Ante às incompreensões, que se fazem hoje tão comuns, em matéria de família e casamento, laços afetivos e fidelidade conjugal, comentávamos esses assuntos calorosamente. Havia entre nós muitas discordâncias; quando nos decidimos ao culto da prece, buscando inspiração ou diretrizes de nossos benfeitores espirituais.

Depois da prece, O Livro dos Espíritos () nos deu para estudo a questão número 696 e continuamos permutando ideias. Ao término da reunião, com surpresa para nós, o comunicante foi o nosso caro amigo Irmão X. A mensagem se fez, de imediato, muito importante, pela lição que encerra.

O nosso amigo Irmão X não se comunicava por meu intermédio desde 1971. O seu regresso às nossas atividades foi para mim uma grande alegria.


A ESTRANHA PERGUNTA

Este o remate das considerações do amigo Salomão Torres, recentemente desencarnado:

— Imaginem vocês. Estou aqui ainda naquela impressão de tombo e asfixia. Enfarte, é o que ouvi de muitos, quando o corpo já se via naquela de estátua. Traços rígidos e frieza de pedra. Para mim, o enfarte era a soma de mil pequenas e grandes angústias misturadas de indagações incomunicáveis e sem resposta.

O grupo escutava em silêncio e Salomão avançou:

— Bem, vocês sabem. Agora na Terra, sexo é a onda. Liberdade para cá. Liberdade para lá. Sexo livre. Apelos ao sexo. Publicações especializadas de amor às avessas. Espetáculos de “strip-tease”. Afinal, sempre acompanhei os tempos. E lá me fui também para a crista dos casos. Esposa doente e quatro filhos taludos. Dois rapazes esbanjões e duas meninas bonitas. A primogênita, hoje com vinte e duas primaveras, fora destaque em concurso de beleza… Com alguma folga econômica, passei a “pular cercas”…

O narrador careteou um sorriso vago e inquiriu:

— Ignoram o que seja “pular cercas”?

Diante da negativa geral, Torres prosseguiu:

— “Pular cercas” no lugarejo em que me enfiei no corpo significa falhar aos compromissos. Pois é. Esqueci esposa, casamento, lar e família… e habituei-me às noitadas de gente livre, na cidade grande. Negócios nos dias úteis e encontros de machão nos fins-de-semana. De quando a quando, bordejos nas capitais ou no Exterior. O avião favorecia. Acompanhantes não faltavam. Vez por vez, ouvia os amigos experimentados: “Salomão, Salomão, não brinque com fogo… Ninguém é tão desligado que possa viver feliz sem obrigações…” Entretanto, sempre supus que dois ouvidos teriam apenas a função de passagem do som.

Continuei nas mesmas aventuras. Indiferente. O lar ficara para trás. Uma espécie de garagem para a tradição. Vocês entendem. Amor responsável é um fixador de alegria. Sexo livre gera prazer. A alegria é a paz da sede estancada. Prazer é a febre com a sede que devora. Entregue ao prazer, cada fim-de-semana buscava novidades.

Salomão arregalou os olhos, dando-nos a ideia de que atingia o ponto culminante das próprias recordações e concluiu:

— Agora, ouçam e pasmem. Em grande cidade brasileira, participava, com a turma, de uma excursão a campo novo. Depois do “strip-tease” de bela menina dedicada a esse tipo de apresentações, fomos ao encontro do “ninho de surpresas”. O ninho de surpresas é um pequeno pavilhão de dez compartimentos. Em cada compartimento, a beldade sorteada para o suposto encantamento da noite. Munido da numeração que me coube, demandei o local indicado. Abri a porta no claro-muito escuro e, devidamente preparado, segui em frente. Mas, face à face com a jovem que me esperava sequiosa de sexo, encontrei minha própria filha… Um choque indefinível me turvou a cabeça e caí…

Retornei à realidade, juntamente de amigos que me haviam hospitalizado. Em torno de mim, registrei diagnósticos e pareceres diversos, no entanto, por dentro de mim, somente ouvia a pergunta que endereçava a mim próprio: “Meu Deus, que serei eu? Homem ou animal?” Repetindo a indagação por muitos dias, acabei saindo do corpo, qual figura de zoológico fugindo de jaula enferrujada…

Salomão esboçou o gesto de quem olhava profundamente para dentro de si e observou:

— Eis-me aqui com vocês, desconhecendo em que mundo me vejo… Tenho a ideia de que estou sentenciado a enxergar unicamente aquilo que trago na lembrança para reafirmar a estranha pergunta: “Meu Deus, que serei eu? Homem ou animal?!…”

Lágrimas espontâneas lhe saltaram das pálpebras e Torres nos enviou um olhar agoniado, como quem nos pedisse resposta, mas todos nós, os companheiros que lhe ouvíamos a palavra quente de dor e sinceridade, jazíamos sob forte emoção e ninguém respondeu.


(.Humberto de Campos)


Irmão X
Francisco Cândido Xavier


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