Cartas do Alto

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Capítulo II

Mensagem de um velho combatente


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Nem sempre a fé, por mais pura, consegue descerrar, enquanto permanecemos na carne, os véus que nos obscurecem a razão. Muitas vezes, é preciso que a morte opere sobre a nossa existência a ação destruidora da tempestade. A ventania furiosa que castiga a natureza derruba muitos cárceres, libertando a vida em muitas direções. Esse é talvez o trabalho mais positivo da morte no campo isolado de uma reencarnação. Adquirimos clareza e impulso renovador nas forças profundas do ser e, com isso, observamos que a nossa mente é, na maioria das ocasiões, antigo compartimento que se desentulha. Enxergamos o horizonte novo e os erros cometidos sobrelevam-se na tela da memória, torturando-nos a alma, impedindo-a a mais altos voos na purificação. Referimo-nos a esse doloroso cativeiro do pensamento, na cristalização do individualismo doentio, e reportamo-nos a semelhante quadro de libertação pelo esgotamento da energia física para dizer aos companheiros de sementeira espírita-cristã, no Brasil, das nossas necessidades de reavivamento espiritual, segundo os ditames da lição de Jesus.

Apenas o personalismo enfermiço poderá fortalecer a obra escura e temporária da desunião em nossas fileiras de trabalhadores leais ao bem comum, de vez que não nos falecem recursos de erguimento evangélico, desde a primeira hora do clarim redentor de Ismael, sob a égide do Senhor, na terra que nos é particularmente querida. Bem-aventurados quantos puderam olvidar a si próprios nessa forja de lutas e bênçãos, consagrando-se totalmente à obra da fraternidade e da luz que os mensageiros do Céu instituíram aqui desde os primórdios de nossa construção doutrinária. Não pude, qual aconteceu a muitos irmãos de ideal, entender a extensão do ministério a que fomos chamados e menos atento ao ensino daqueles “pouco escolhidos” dediquei-me, sinceramente, em verdade, à tarefa que me dizia respeito, distraído, no entanto, do serviço integral do todo, que defina a execução dos desígnios do Mestre crucificado. Indiscutivelmente, há muito patrimônio valioso e aproveitável no círculo daqueles que hostilizam o apostolado de Ismael, na coletividade espiritista brasileira, mas oferecem aos orientadores do Além o espetáculo de fontes preciosas que fornecem ao viajor algum benefício, perdendo-se, contudo, na expressão mais compacta de suas utilidades, no charco das discussões esterilizantes ou do esforço improdutivo da vaidade pessoal, sob piedosas formas de cultura ou beneficência. Nada amealham, realmente, essas inteligências primorosas que se situam no debate ou na negação, no verbo pernicioso ou na atitude imprópria, porque a morte é sempre um juiz incorruptível, que não sentencia, e sim descobre-nos o caráter, o sentimento, o raciocínio e a intenção, ao clarão soberano da verdade, que transportamos, candente e viva, dentro de nós mesmos. Nossas palavras não se dirigem a qualquer individualidade ou grupo, na comunhão dos nossos companheiros. Traduzem apenas alertamento e aviso, porquanto, cedo ou tarde, reconheceremos que o Espiritismo é aquisição mundial de conhecimento e virtude, através do estandarte das novas revelações, que surgem na esfera de todos os países e de todas as línguas, por injunções do Plano Superior, e que o Espiritismo com Jesus é serviço regenerativo, sem o qual a criatura humana permaneceria indefinidamente sem soerguer-se do abismo a que se projetou. E nesse clima de transformações das causas e dos efeitos do nosso ideal renovador é preciso anotar, sem paixão e sem má-fé, que a bandeira de Ismael, no Brasil, vem levantando o espírito coletivo para a grande ascensão. Debalde nos asilaremos em palácios científicos e filosóficos, subtraindo-nos às bases de simplicidade que nos regem os destinos. A religião, interpretando a essência da vida, acentuar-nos-á a sede de paz e de amor, em toda parte, arrebatando-nos a novas experiências. Unificarmo-nos, pois, sob as diretrizes do Evangelho, é obrigação inadiável para quantos já puderam realizar a feliz evasão das algemas de ouro e bronze da vaidade. Para objetivos tão sublimes, formaram-se os alicerces da restauração da Boa Nova no clima sentimental de nossa gente. Quantos encontrarem a energia indispensável à extinção de velhos e ruinosos caprichos para que se cumpram os impositivos de nossa legítima integração com a jornada nova, abençoem a possibilidade de servir a essa causa venerável que, no fundo, representa a iluminação interior da humanidade. Mais cedo encontrarão a substanciosa colheita do esforço, porque, qual ocorre no símbolo da videira e das varas, demorar-se-ão unidos à divina seiva que nos alenta hoje o trabalho de verdadeira coesão espiritual no rumo da vitória de nossos princípios santificantes.

Não desfaleçais, portanto, diante da hostilidade de muitos, porque a difamação ou o sarcasmo assinalam notas de desespero de quantos não se sentiram bastante fortes naquela perseverança que caracteriza o discípulo enobrecido no aprendizado de renunciação até o fim. As armas da calúnia e da ironia são munições das trevas, mas o portador da luz, à maneira do raio de sol, encontra mil meios de aclarar o fundo denegrido de todos os despenhadeiros da sombra e do mal. Quem ama o bem do próximo devota-se às ideias e aos recursos do auxílio, nunca à verrina ou à má vontade para complicar os problemas com lastimável esquecimento da prosperidade de todos. Quem serve sem pruridos de paixão pessoal a uma causa sublime, qual a nossa, não estuda meios de ferir e perturbar e, sim, converte a própria ação incansável em serviço incessante pela paz e pela felicidade comuns. Compreendemos agora que, para atingir a superioridade desejável, ainda teremos de mobilizar as mais elevadas cotas de sacrifício individual pelo triunfo legítimo do Cristo nos corações.

Mas na própria tarefa encontraremos o alimento imprescindível ao coração de aprendizes do Mestre que serviu, amando em silêncio, até à cruz. Minha palavra humilde nada oferece de novo, bem o reconhecemos, entretanto possui a experiência nova com que fui aquinhoado, além do túmulo, dentro da qual vou percebendo com amplitude e exatidão que a obra do bem é empresa do Cristo e que, depois de havermos cumprido, fielmente, todas as obrigações que nos cabem na extensão da fraternidade e da luz, sob o seu amoroso comando, consoante os ensinamentos apostólicos, não passamos de meros servidores.




Reformador — Julho de 1950.


Mensagem publicada no Livro Vida e obra de Bezerra de Menezes, de autoria de Sylvio Brito Soares (FEB, 8ª. ed., 1962, página 114).



Afonso Angeli Torteroli
Francisco Cândido Xavier


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