Cartas e Crônicas

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Capítulo XXXVI

No aprendizado comum


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Sob a inspiração de vários amigos espirituais, eminente assembleia de investigadores da sobrevivência do homem congregava-se em extenso gabinete para serviços de materialização.

Reunia-se, ali, em atitudes solenes, uma dúzia de cavalheiros bem postos e senhoras de bom gosto, com admiráveis aparências, primando cada um no esforço de particularizar a própria personalidade.

Acompanhando as conversações, com a malícia cordial do observador que ainda se não desligou totalmente das ilusões e desenganos da carne, reconhecemos que era de pasmar a copiosa bagagem de conhecimentos no grupo expressivamente adornado.

Um professor de doutrina comentava, gostosamente, as teorias richeístas, exaltando a individualidade do fisiologista, todas as ideias mais destacáveis do famoso criador da Metapsíquica eram postas à mira, tocadas por moderna conceituação da filosofia negativista. Os livros dele foram examinados, um a um, com dilatado primor verbalístico e, logo após, um companheiro intelectualizado explanou sobre as pesquisas de Lombroso e Oliver Lodge, médiuns dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Itália eram apontados, um a um, com extravagantes definições. As , Valientine, a senhora Roberts e , além de outros instrumentos de nomeada, padeciam análise cruel.

É imprescindível situar a percentagem de influência do aparelho medianímico nas comunicações, exclamavam enfáticos, como se constituíssem o mais alto tribunal do mundo, para apreciação e julgamento da verdade.

Teses variadas eram trazidas a estudo.

Os raios rígidos, a emoção nervosa, as emersões do subconsciente, o hipnotismo vulgar e até o demonismo são recordados com intenso interesse.

Ochorowicz, Barrett, De Rochas e Gibier foram reverenciados com indiscutível atenção.

Uma senhora mais romântica se reportou a e deteve-se na Astronomia, comentando as últimas observações do monte Palomar. Assinalou com dicção correta e inegável beleza o infinito da vida, que palpita nos lares suspensos, em torno de maravilhosas constelações. Sírius e Arctúrus, as nebulosas da Andrômeda e de Orion, surgem na sua palavra bem inspirada, revelando-lhe o trato minucioso com os clássicos do assunto.

Companheiros outros se referem a experiências novas na Bélgica e na França, tecendo comentários longos e nobres.

É difícil encontrar assembleia tão fundamente esclarecida em matéria de ciência e realidade.

A visão do caminho evolutivo, a solução ao problema do ser e ao enigma da morte, o conhecimento da espiritualidade vitoriosa resplandeciam, através de cada frase bem feita.

O horário do encontro entre os vivos do Além e os vivos da carne aparece no relógio comum e uma prece labial ressoa no ambiente, com todo o preciosismo gramatical de Camilo ou Herculano…

Uma centena de trabalhadores espirituais se esforça, sofre e sua para materializar uma entidade que se expõe ao trato direto com os observadores, chorando de aflição pela responsabilidade que o fenômeno envolve em sua estruturação mais íntima, demorando-se por mais de uma hora, sob o controle desagradável da reduzida assistência que, ao término dos trabalhos, relaciona vasta colheita de dúvidas venenosas…

Abre-se a porta e, em plena via pública, alguns mensageiros espirituais da caridade conduzem, até aquele punhado de príncipes da inteligência, dois homens andrajosos e famintos, suicidas potenciais, vencidos pela enfermidade negra, implorando-lhes socorro, mas ninguém, nem mesmo um só deles, se volta para os dois rebutalhos humanos, que se arrastam sem rumo.

Boquiaberto pelo que via, o Fagundes, companheiro recém-chegado ao nosso círculo, dirigiu-se a mim, perguntando:

— Meu amigo, para que se reúne esta gente, provando a sobrevivência espiritual, com tanta ideia luminosa na cabeça e tanto gelo no coração?

Convencido quanto à transcendência do assunto, e sem tempo para compridas divagações, pude apenas considerar:

— Fagundes, a rigor, não lhe posso responder. Lembro-me somente de que, em certa ocasião, a serviço de um jornal, acompanhei reduzida assembleia de magnatas da economia e da indústria, carregados de assistentes e de livros de cheques. Discutiram, por noites consecutivas, sobre a libra esterlina e sobre o dólar, com o mesmo furor com que examinavam o franco e o peso argentino, estudando processos de multiplicar as riquezas que lhes abarrotavam os cofres. Surpreendi-me ao reparar tanta ciência da vida e tanto senso na direção dos negócios que lhes diziam respeito; contudo, decorridos alguns anos, vim a saber que todos os componentes do grupo morreram de fome, castigados por úlceras cancerosas no duodeno ou no estômago.

Fagundes fitou-me de estranha maneira, enquanto me despedia, mas, até hoje, não sei se ele percebeu o que eu desejava dizer.


(.Humberto de Campos)


Irmão X
Francisco Cândido Xavier


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