Colheita do Bem

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Capítulo LXXIX

Observo, com vocês, a tempestade


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21/03/1951


Meus caros filhos, Deus abençoe a vocês, conferindo-lhes muita saúde, alegria e paz, votos esses que faço extensivos aos nossos sempre caros amigos General Aurélio e irmã Júlia.

. Nuvens no céu e ventania na paisagem, mas igualmente com vocês me rejubilo em nosso refúgio-santuário, cheio de bom-ânimo, fortaleza e paz, que, com a graça do Senhor, vamos edificando solidamente.

Não são os raios da atmosfera nem o furacão que nos infundam terror ou mágoa. Não são os golpes da natureza e as transformações do clima que nos incomodam. É a corrente de enxurrada, o detrito que desce, tentando penetrar-nos o reduto de paz santificante. Não por nós, mas pelos ideais que asilamos, pelos dons amealhados, pelas esperanças queridas que o Céu nos confiou. Sim, por esses valores de características sublimes a aflição da expectativa é natural. Ainda assim peço a vocês continuidade de atitude, prosseguimento de calma, a fim de que a tormenta não nos tome os corações.

Pessoalmente, meu caro Rômulo, tenho conversado com você, sem palavras, relativamente aos problemas de ordem imediata, isto é, problemas concernentes à experiência no campo material. Não precisarei alongar-me em considerações escritas, porque nos achamos em perfeita sintonia. A luta no mundo é justamente um trabalho que não pode terminar. Em todas as direções, o combate se alarga quando se nos alarga a visão.

Estamos acompanhando o caso em si, com o carinho de sempre, e guardamos, como em todos os dias, o melhor otimismo. Entretanto, em você mesmo tenho concentrado a minha mais elevada atenção. Não posso dizer-lhe “desligue o pensamento”, sem recomendar “não se aborreça”. Isso seria desconsiderar a dedicação de que você tem alimentado mente e coração no abençoado roteiro de suas tarefas desde o início. Não. Rogo-lhe apenas diminuir a “tensão” para que o ritmo acelerado da vida mental não nos imponha dificuldades orgânicas de vulto.

Aplique a lente da serenidade sobre todas as situações. A serenidade ensina-nos a ver. Em muitas ocasiões, quando supomos explicar, atendendo à precipitação, mais complicamos os problemas que nos cercam. Dentro de nós mesmos, a criação, com inúmeras faculdades de exteriorizar-se, jamais cessa.

Você sabe que uma árvore produtiva sofre o assédio de quase todos os passantes da estrada. Uns desejam a colheita dos frutos, outros lhe decepam os ramos. No fundo, você deve guardar um santo orgulho por haver realizado e estar realizando uma obra bem ordenada e bem executada, capaz de acordar tanto despeito e tanta perseguição. É difícil conseguirmos semelhante coroa em tão pouco tempo.

Graças a Deus, o seu espírito tem sabido comandar e obedecer, administrar e cooperar, trabalhar e servir. Não dormiu você sobre as oportunidades e ainda que todos os seus contemporâneos, amigos, beneficiários e adversários esquecessem a sua atuação o serviço falaria alto por você, incorporando o seu abençoado concurso ao labor vitorioso da comunidade. E bem-aventurados são sempre aqueles cujos advogados são as próprias obras.

Deus abençoe a você contra as pragas do desalento. Esperemos o desdobramento do assunto, com o valor que nos assinala a fé viva. Segundo o nosso entendimento anterior, aqui mesmo estamos à frente de uma “enfermidade” provocada pelos micróbios da calúnia e da perturbação. Não podemos precisar, por enquanto, o curso da moléstia e nem conseguimos traçar um quadro definitivo para os estudos necessários. Papéis variados em casas administrativas e conversações inúteis que não nos é possível congregar num resumo sério. Mas esperemos, de mãos postas no arado das nossas responsabilidades, sem desmerecer da confiança do Alto, nas mais difíceis circunstâncias. Na essência, o dono da vida terrestre, depois do Todo-Misericordioso, é Jesus, nosso Senhor e Mestre. Nada permanece em nossas mãos sem a autorização dele e estejamos convencidos, nas obrigações bem executadas, que o divino Amigo não endossa a injustiça. Às vezes modifica, transforma ou reestrutura os quadros em que nos movimentamos, todavia, creia que tudo ocorre para a glorificação do bom trabalhador. Servindo, aguardemos o futuro, pedindo, porém, a você conservar a sua tranquilidade interior como quem defende um tesouro.

Felizmente, você tem conquistado, sem perceber, valorosos potenciais de resistência. O conflito não empolga as suas forças, não lhe retira a reflexão, nem lhe flagela a mente. Você tem sabido caracterizar as próprias atitudes com preciosos selos de calma e prudência. Não desejo omitir as probabilidades de continuação da luta, em face das circunstâncias estranhas em que se levantaram, compreendendo que o clima de incerteza favorece a subversão dos valores, mas espero que você saiba sorrir com os comentários. De uma certeza desejo que o seu coração esteja repleto: é a certeza de que há sempre mais serviço a fazer, maiores bens a serem distribuídos e mais largas alegrias a serem conquistadas. Lembre-se da sua perseverança de 1930. Muitas vezes, eu mesmo me surpreendi à frente de sua insistência benéfica. Há sempre portas e entradas para a consolidação e reconsolidação de nossas posições. Em circunstâncias difíceis quanto as de agora, usemos a compreensão e a tolerância com esclarecimento amigo nas sedes perturbadas do pensamento. A melhor maneira de corrigir os efeitos é sustar as causas e, por vezes, devemos modificar as ideias nos nascedouros em que se originam. De nossa parte, esteja certo de que nós, muitos amigos e eu, defenderemos quanto possível a sua paz e a sua segurança. Ajude-nos com a própria harmonia para que o nosso esforço não se faça periclitante. A calúnia costuma atirar muita lama, entretanto, há sempre também excelentes corrosivos para a limpeza comum.

Não dê guarida ao desânimo, não esmoreça e não se perturbe. E veremos que a bondade do Senhor acena docemente para nós em todos os dias, encaminhando-nos para o entendimento superior e para a indiscutível felicidade. Estarei ao seu lado e a qualquer momento basta chamar-me em pensamento, a fim de que estejamos intimamente mais juntos.

Aos nossos bons amigos General Aurélio e irmã Júlia, desejamos muita felicidade. O tempo está prometendo ares mais frescos e acreditamos que o retorno ao mar lhes trará grande benefício à saúde. De nossa parte, e aqui falo por vários amigos e por mim mesmo, auxiliá-los-emos quanto estiver ao alcance de nossas possibilidades, a fim de que desfrutem muito bem-estar no reconforto de que se fazem indiscutíveis credores.

Que Jesus nos abençoe. Roguemos ao Alto para que o Roberto seja feliz, seguindo-o com os nossos corações na vida nova iniciante.

E pedindo a vocês para não nos esquecermos do uso da calma e da confiança, em todos os dias, reúne-os num abraço muito de coração, com carinho, reconhecimento e saudade o papai que vive sempre ao lado de vocês,




A. .Joviano
Francisco Cândido Xavier


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