Capítulo IV

Unidos na fé e no pensamento, no ideal e no trabalho

Queridos pais e meu caro Mário, Deus nos abençoe.

Volto às nossas notícias últimas. Seria tão de desejar pudéssemos sempre manifestar os próprios pensamentos sem trazer qualquer dúvida, entretanto, a vida é um processo de evolução contínua e precisamos conformar-nos com indagação e pesquisa em qualquer setor da existência.

O propósito de acentuar autenticidade e identificação me levou a marcar presença e auxílio de amigos determinados. De pronto, não me propus a destacar esse ou aquele vulto suscetível de causar dificuldades no campo social e familiar.

Referi-me assim à Velha Margarida, porque as imbricações de caráter afetivo ou doméstico seriam impossíveis. Aceitemo-la por alguém a cujo afeto devemos muito, no encadeamento de apoio e bênção, nas áreas daqueles que nos proporcionaram os tesouros da experiência no lar.

Em nosso lar, que se divide entre dois continentes, compreendendo-se que somos filhos de Deus integrando a Humanidade num mundo só.

Não tenho por agora, outro nome para essa serva do Cristo. Quando me reportei ao assunto, creio haver dito que ela “prefere ser conhecida” com o nome apresentado.

Esse “prefere” enuncia por parte da benfeitora a intenção de ocultar-se na luz da singeleza em que busca olvidar as sombras-resplendentes de ontem.

Sombras-resplendentes é o termo de que me aproprio para explicar que, muitas vezes aqui, somos induzidos a esquecer o brilho e o renome, a influência e o poder que nem sempre usamos para o bem nas épocas remotas de que emergimos para as conquistas de agora, nas bases do Cristianismo simples e acolhedor.

Poderia, de minha parte, nomear muitos Perez, Suarez, Martinez, Ponce de Ferret, Sagasta e nomes outros de amigos que apoiaram a instalação de nossos predecessores queridos nas plagas abençoadas que atualmente nos emolduram as vivências no Plano Físico, mas escolhi um nome sem nome, alguém em que nos amando nas raízes de nossa formação no presente, procurou despreocupar-se de qualquer ligação com haveres e teres que, de há muito deixou na retaguarda, a fim de identificar-se com a causa do Bem.

E Velha Margarida, em se referindo à companheira, mostrou que pelo amor nada esqueceu e que prossegue amparando a amiga que também agora experimenta em nova reencarnação o trabalho e a bênção de resgates finais na Terra.

Nossa querida irmã e benfeitora disse que lembra diligenciando acordar nos pais queridos e em nós mesmos algo de que não nos recordamos de imediato e essas reminiscências para ela são presentemente tão doces ao espírito, quanto o serão para nós todos, quando nos reunirmos em definitivo, no Plano Maior, de memórias reformadas em sentido amplo, o que, de minha parte, vou fazendo por graus de reconhecimento e revisão do pretérito de que procedemos com as nossas lutas e tribulações redentoras.

Repito que minhas notas são de “uma Campinas Espiritual que encerra a continuação da Campinas do Plano Físico que tanto amamos”.

Imaginem os tropeços dos companheiros desenfaixados do envoltório físico, ao tentarem a comunicação com as áreas terrestres. Cada palavra nossa há de ser pesada na razão e nas consequências posteriores. Uma citação ligeira é capaz de desencadear um processo enorme de explicações. Tudo isso porque a responsabilidade de dizer isso ou aquilo quando nos achamos domiciliados aqui, envolve a segurança e a paz dos agrupamentos a que nos mantemos arraigados por fortes elos afetivos.

Mãezinha, peço-lhe não se aflija tanto se observamos familiares queridos sem forças para a integração com as realidades da alma.

Aguardemos; creia que até mesmo um recado carinhoso do Mais Além para os caminhos humanos pode expressar violência em nome do amor, dando motivação a muitas apreciações infelizes.

Converso aqui, na condição do espírita que se desenlaçou do mundo de matéria mais densa: na hipótese de me comportar levianamente, endereçando apontamentos de afeto e saudade a setores do coração que ainda não se habilitaram para o Entendimento Maior, quem poderá afirmar que esses setores deixarão de reagir negativamente?

Tanto quanto puder creia com meu pai que estaremos unidos na fé e no pensamento, no ideal e no trabalho. E sobre nós, com a bênção de Deus, existe um poder soberano que é o poder do tempo.

Continuemos amando, ainda mesmo quando transitoriamente distanciados nos pontos de vista, aqueles que nos ocupam os lugares mais sagrados da alma, conquanto não nos aceitem de momento, na construção nova em que nos levantamos, gradativamente, para o Mais Alto.

Nesse ponto de minhas pobres anotações é preciso mergulhar no tempo (sempre o tempo), e rememorar que também nós, em outros períodos de evolução e renovação, não admitíamos a verdade que acalentamos agora. E nem por isso, Jesus nos abandonou aos nossos próprios enganos.

Existências e experiências, lutas e aquisições espirituais nos moveram devagarinho ao trato de conhecimento, um pouco mais amplo, em que nos identificamos hoje e assim continuamos para a Vanguarda, seguindo com todos aqueles entes amados que igualmente continuam com as bênçãos de Deus, de outro modo.

Todos gravitamos em torno de órbitas diferentes no terreno de nossas aspirações e necessidades, sem nos esquecermos de que, no Grande Futuro, seremos todos nós forças unidas evoluindo harmonicamente, em torno do Sol que nos assegura os valores do Espírito no Campo Terrestre — Jesus Cristo. Sigamos com Ele e não estaremos em trevas, (Jo 8:12) segundo as afirmativas do Apóstolo.

Um abraço muito afetuoso aos companheiros. Parece que simplesmente estudei ao invés de comunicar-me. Nosso prezado Tamassía, porém, sabe que tudo isso é parte de nossas realizações.

Rogando ao senhor nos abençoe e reunindo mãezinha e meu pai no coração para uni-los cada vez mais fortemente ao meu carinho e gratidão de sempre, sou, agora como em todos os dias, o filho cada vez mais reconhecido,


Gabrielzinho


Hábitos e atitudes.

Gabrielzinho tinha por hábito fazer compras de gêneros alimentícios, principalmente doces, levando-os aos meninos internados no Educandário Eurípedes, um dos departamentos do Centro Espírita Allan Kardec, de Campinas.

De coração aberto, procurava sempre auxiliar e socorrer os mais necessitados que lhe batiam à porta em busca de auxílio, demonstrando, nessas ocasiões, profundo sentimento cristão.

Às refeições, principalmente, quando em comentários sobre procedimentos e atos de pessoas, estava sempre atento evitando a maledicência, citando passagens evangélicas apropriadas ao assunto.

Em 18 de outubro de 1959, fez a primeira comunhão, na 1greja do Carmo.

Frequentava quase que diariamente a Igreja, quando de volta do Colégio.

Certo dia, em 1963, informa-nos Sr. Gabriel, devido à sua assiduidade ao templo religioso, foi Gabrielzinho interpelado pelo sacristão sobre sua possível vocação sacerdotal.

Em casa, naquela tarde, relatou à genitora o diálogo que mantivera com aquele servidor.

D. Irene, que lhe conhecia a meticulosidade com que tratava de assuntos de ordem espiritual, sentiu chegado o momento de falar-lhe. Esclareceu-lhe que, em O Livro dos Espíritos, que ela estava relendo, por certo encontraria ele todas as respostas que procurava e que necessitava conhecer.

A partir desse dia, iniciou-se na Doutrina de Kardec, tornando-se verdadeiro espírita-cristão; convicto e, acima de tudo, atuante.


1 — “Meu caro Mário”: Trata-se do Dr. Mário Boari Tamassía, a quem já nos referimos no .


2 — Velha Margarida: , retro.


3 — “As sombras-resplendentes de ontem”: Expressão admirável de que se serve Gabrielzinho para nos lembrar que, se não nos identificarmos, em espírito e verdade, com o Cristo, debalde alcançaremos o pináculo das gloríolas terrenas ou do mundano renome.

Despojados do corpo físico, se não construímos com o Divino Mestre a nossa personalidade integral, de nada nos adiantarão a aparência de grandeza ou o suposto poder temporal que tenhamos deixado no plano denso da matéria.

Quanto aos chamados tipos populares, que são a prova irrefutável da reencarnação, já que todos, dentro das respectivas extravagâncias ou aparentes loucuras, conseguem se impor como são à sociedade a que pertencem, tornando-se elementos queridos e respeitados, acima dos seus coetâneos diplomados em cursos superiores, muitos detentores de riqueza material ou bem situados na escala social.

O que eram eles, voltam a sê-lo, sofrendo, porém, no âmago de seus espíritos, a humilhação redentora, que muito lhes ajudará nas próximas existências.

No Capítulo VIII — 2ª Parte — de O Céu e o Inferno, Allan Kardec estuda a situação de dois Espíritos que foram mendigos — “” e “”, ambos empedernidos egoístas e orgulhosos em vidas pregressas.


4 — “Poderia, de minha parte, nomear muitos Perez, Suarez, Martinez, Ponce de Ferret, Sagasta e nomes outros de amigos…” — Segundo pesquisa feita pelo Sr. Gabriel Espejo Martinez, trata-se de personagens que viveram na Espanha, no período que vai de 1600 a 1800.


5 — “Repito que minhas notas são de “uma Campinas Espiritual que encerra a continuação da Campinas do Plano Físico que tanto amamos”.” — Sobre a Campinas Espiritual e a Campinas Terrestre, sugerimos a leitura do discurso proferido por Chico Xavier/Emmanuel, naquela progressista cidade paulista, a 27 de julho de 1974, quando o médium do Parnaso de Além-Túmulo recebeu o título de Cidadão Campineiro, e que foi publicado no opúsculo Chico Xavier no Bicentenário de Campinas.


Concluindo o presente capítulo, que todos os pais que costumam projetar, inconscientemente, nos filhos, as próprias dificuldades, sofrendo ante a diversidade de caracteres de cada elemento da constelação familiar, possam ler e reler conosco este antológico apontamento retirado da mensagem sob nossa análise, recebida pelo médium Xavier, no Grupo Espírita da Prece, a 27 de março de 1976:

Todos gravitamos em torno de órbitas diferentes no terreno de nossas aspirações e necessidades, sem nos esquecermos de que, no Grande Futuro, seremos todos nós forças unidas evoluindo harmonicamente, em torno do Sol que nos assegura os valores do Espírito no Campo Terrestre — Jesus Cristo.”


TRECHO DE ARTIGO ESCRITO POR GABRIEL QUANDO ENCARNADO

“Os tempos, são chegados e, por isso, tudo devemos fazer para que possamos, no futuro, colher os frutos de nossa semeadura. Sentimos não raras vezes, obstáculos que se nos apresentam a tolher nossas ações. Não devemos por isso desanimar e sim, caminhar com mais amor a estrada que nos levará à perfeição total. Assim como a pedra gigantesca que interrompe o caminho é destruída pela explosão, devemos fazer o mesmo com os obstáculos que encontrarmos. Devemos destruí-los não pela violência, mas, sim, com a fé que remove montanhas.

Precisamos ser fortes, confiantes, e termos o coração transbordando de fé e esperança no Divino Mestre.

A estrada é árdua, pedregosa e repleta de perigos e surpresas. Para asfaltá-la, temos que reparar os buracos que nela fizemos com nossos erros dos tempos pretéritos.

(…)

O mundo pode ser cruel, materialista e de expiações, porém, devemos com nossos pensamentos e ações melhorar um pouquinho que seja nosso mundo interior; se todos assim fizerem, conseguiremos com certeza abrir a estrada que nos conduzirá ao Coração do Mundo, a tão aguardada Pátria do Evangelho.” (Gabriel Casemiro Espejo, “A Estrada do Evangelho”, Alavanca, junho de 1972).


Elias Barbosa


Gabrielzinho
Francisco Cândido Xavier


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João 8:12

Falou-lhes pois Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.

jo 8:12
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