Momentos de Ouro

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Capítulo XVII

O salvador inesperado


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Era uma jovem artista, diferente…

Contava apenas quinze primaveras,

Mas atraía em muita gente

Interesse, atenção, bondade, simpatia.

Sabia interpretar mensagens de alegria

E enriquecer canções

Que o público aplaudia

Em palmas e ovações.


Mas, em casa, essa jovem

Tomava outra figura,

Parecia uma fera caprichosa!

Trazia exteriormente a beleza da rosa

E por dentro de si todo um arsenal de espinhos.


O pai, viúvo e só, notava isso

E ao ver a filha única, vaidosa,

Ele, humilde operário, agarrado ao serviço,

Começou a beber, buscando o esquecimento;

Lamentava a viuvez, a dor, o desalento…


E, ao estragar-se, um dia,

Ouviu a filha, em dura rebeldia,

A expulsá-lo do lar:

— Vá-se embora daqui — disse a filha a gritar —

O senhor já não manda nesta casa,

Um pai bêbado é nódoa para mim;

A tolerância sempre chega ao fim…

O seu vício me arrasa,

Saia, saia daqui, seu lugar é na rua!…


O pobre pai mal pôde levantar-se,

Mas ergue-se, recua,

E vai cambaleando na calçada,

Enquanto a filha tranca a porta

E vai dormir mal-humorada.


Seis anos transcorreram sobre a cena;

A menina fizera-se famosa.

No circo de alto luxo, ela domina…

Parecia, em trapézio, uma estrela divina

Ou borboleta humana,

Bailando soberana.

Era a dona dos prêmios e era vista

Por beleza sem par e modelo de artista.


Veio uma grande noite. Aplausos. Alegria.

A plateia delira. E a multidão das palmas,

O número da moça é quase que magia.

Há espanto nos olhos, êxtase nas almas…

O trapézio voava, ela saltava e ria,

De corpo seminu, em leve fantasia.


Nisso ocorre o imprevisto. Ante a plateia atenta,

Surge um curto-circuito e faísca violenta

Ateia fogo em cima e arrasam-se estruturas;

A jovem trapezista atrapalha-se e agarra

Uma viga de amarra

Que fica nas alturas…

Ela, a estrela da equipe, a moça bela e forte,

Grita e roga socorro, ao conhecer-se

Em presença da morte.


O incêndio se desata, o circo se esvazia,

A jovem grita, grita e ninguém a escuta;

A multidão de longe apenas segue

Os detalhes cruéis daquela imensa luta.


Mas um velho palhaço, um canastrão de arena,

Vara o fogo e se eleva, em corda frágil;

Eis que o povo lhe exalta a coragem serena…

Certa viga, ao cair, espanca-lhe a cabeça,

Ele, porém, não para e, ante a fumaça espessa,

Alcança a moça aflita e, tomando-a nos braços,

Desce, devagarinho,

Procurando caminho,

Nos bancos chamejantes, em pedaços…


Mas, ao depor no chão a moça linda e salva,

Ela sorri feliz…

O povo aplaude, prazenteiro.

Entretanto,

Cai exausto o truão do picadeiro,

Tomba mostrando a boca, em larga flor de sangue;

Era uma chaga só aquele corpo exangue.

Arfa-lhe o peito enorme, a morte se aproxima.

Alguém chega e o reanima;

É um velho amigo que reaparecera

E que lhe arranca a máscara de cera…

O povo se aglomera… Ante a cera que cai.

A moça empalidece,

Ajoelha-se e grita, como em prece:

— Meu Deus, ele é meu pai!…


E ele nela fixando o olhar que se despede e brilha,

Num resto de calor e de ternura,

Tão-somente murmura:

— Deus te guarde e abençoe

Filha do coração, meu amor, minha filha!…




Maria Dolores
Francisco Cândido Xavier


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