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Capítulo XLVII

O tempo urge


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Quando o Senhor determinou que algumas das Virtudes Celestes viessem ao mundo, trazendo a Felicidade para as criaturas, a Fé acercou-se do Homem, antes das demais, e disse-lhe compassiva:

— O Poder Superior governa-nos o destino. Confia na Providência do Pai Misericordioso e aprende a contemplar mais longe…

O Homem sorriu e replicou:

— O tempo urge. Viverei seguro na máquina de ganhar e guardar facilmente. Não aceito outras deliberações que não sejam minhas.

Veio a Humildade e pediu:

— Meu filho, não te vanglories do que possuís, porque Deus concede os recursos no momento preciso e retoma-os, quando julga oportuno. Sê simples para contentar a ti mesmo.

— O tempo urge — exclamou o Homem, sarcástico —, e se o minuto é meu, que me importa a eternidade? Gozarei o dia, segundo meus desejos. Não tenho necessidade de submeter-me para ser feliz.

Chegou a Bondade e suplicou:

— Ajuda no caminho para que outros te beneficiem. Nem todos os instantes pertencem à primavera. Sê compreensivo e generoso! O rico pede cooperação fraternal, a fim de que a fortuna o não encegueça; e o pobre reclama concurso, para que a escassez não o conduza ao desespero.

— O tempo urge — gritou o Homem — e não posso deter-me em ninharias. Quem dá, espalha; quem nega, concentra. Minha defesa aparece em primeiro lugar.

Surgiu a Paz e implorou:

— Amigo, esquece o mal e glorifica o bem. Não entronizes a discórdia. Cede em favor dos necessitados. Não te detenhas no egoísmo voraz.

— O tempo urge — respondeu o Homem —, e se eu renunciar em benefício alheio, que será de mim? Cedendo, perderei. Não guardo vocação para a derrota.

Em seguida, compareceu a Paciência e aconselhou:

— Age com calma. Não exijas serviçais em toda parte, porque a tarefa de outros é igualmente respeitável. Socorre os semelhantes, conscientes das próprias necessidades espirituais. Não esmagues as esperanças dos pequeninos e atende à justiça onde estiveres.

— O tempo urge — repetiu o Homem irônico — e as horas correm excessivamente apressadas para que me entregue a problemas de tolerância. Fixando direitas alheios, não perceberei os que me dizem respeito.

Logo após, abeirou-se dele a Compaixão, implorando:

— Irmão, apieda-te dos fracos!…

O interpelado não lhe permitiu continuar.

— O tempo urge — bradou — e a questão dos pusilânimes não me atinge. Sou forte e nada possuo de comum com os inúteis e inábeis.

A Caridade apareceu e apelou:

— Meu amigo, perdoa e ajuda para que a tranquilidade more contigo. Tudo passa na carne. A eternidade reside em teu coração. Por que não te amoldares à lei do amor, a benefício da própria iluminação?

O Homem, porém, redarguiu, entediado:

— O tempo urge! deixem-me! conheço o caminho e vencerei por mim. Quem perdoa, opera contra a dignidade pessoal e quem muito ampara desampara-se.

Então, reconhecendo o Senhor que o Homem estragava o tempo e consumia a vida, inutilmente, sem qualquer consideração para com as Virtudes salvadoras, enviou-lhe alguns dos seus Poderes, de modo a chamá-lo a Juízo.

Aproximou-se inicialmente a Dor.

Não lhe deu conselho algum.

Privou-o do equilíbrio orgânico e acamou-o.

O Homem modificou gesto e linguagem, suplicando:

— Quem me acode? Compadeçam-se de mim!…

Mas a Dor respondeu apenas:

— O tempo urge.

Logo após, veio a Verdade e apodreceu-lhe o corpo.

O Homem rogou:

— Piedade! Piedade! Salvem-me!…

A Verdade, contudo, limitou-se a dizer:

— O tempo urge.

Em seguida, veio a Morte.

O Homem reconheceu-a, apavorado, e pôs-se a gritar:

— Livrem-me do fim! Não posso partir!… não estou preparado!… Socorro!… socorro!…

A Morte, no entanto, repetiu:

— O tempo urge.

E arrebatou-lhe a alma.


(.Humberto de Campos)


Irmão X
Francisco Cândido Xavier


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