Além da Morte

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CAPÍTULO 1

INTRODUÇÃO

Além da Morte chegam, sem solução de continuidade, as imensas caravanas de emigrantes da Terra.

Procedentes dos mais variados rincões do Orbe, trazem estampados no espírito os sinais vigorosos que lhes refletem os últimos instantes no veículo celular.

Aportam no grande continente da Erraticidade, conduzindo a bagagem dos feitos acumulados durante o trânsito pelo mundo das expressões físicas. Nem anjos nem demônios, mas homens que eram, homens que continuam. A desencarnação não lhes modificou hábitos nem costumes, não lhes outorgou títulos nem conquistas, não lhes retirou méritos nem realizações. Cada um se apresenta como sempre viveu. Não ocorre milagre de transformação para os que atingem o grande porto...

Raros despertam com a consciência livre, após a inevitável travessia. A incontável maioria, vinculada atrozmente às sensações animalizantes, se jugula às lembranças daquilo em que se comprazia, e se demora, desditosa, em bandos, quais salteadores enlouquecidos, pervagando em volta do domicílio carnal, até que a Lei Excelsa os recambie ao renascimento.

Muitos, quais doentes em processo de convalescença de longo curso, são recolhidos a Colônias Espirituais, que abnegados missionários do amor e da caridade ergueram nas proximidades do planeta, onde se refazem e retemperam as forças gastas, para recomeçar, reaprender e exercitar a ascensão aos planos mais felizes.

Da mesma forma que na Terra enxameiam as afeições intercessórias, além da morte não cessam as manifestações do amor em intercâmbio contínuo, estabelecendo os fortes laços da proteção e do socorro.

O amor em todo lugar é a alma do Universo — manifestação de Deus.

Mesmo os Espíritos calcetas, inveterados perseguidores da paz de muitos outros Espíritos — infelizes que são em si próprios, espalhando, por isso, a infelicidade de que se encontram possuidos — não estão esquecidos do auxílio divino pelos mensageiros abnegados que por eles velam, que os assistem e amparam.

Em toda parte e sem cessar, o devotamento dos bons reflete a paternal providência divina.

Morrer, longe de ser o descansar nas mansões celestes ou o expurgar sem remissão nas zonas infernais, é, pura e simplesmente, começar a viver... Evidentemente que as dimensões do céu, ou do inferno sem o caráter ad aeternitatem, encontram o seu correspondente em regiões aflitivas onde as consciências empedernidas se depuram para futuros renascimentos na organização física em que se reajustam e se recompõem; ou estâncias de luz onde se comprazem e se reúnem os heróis anônimos do dever, os missionários dos labores humildes que passaram ignorados, os sacerdotes do trabalho aparentemente desvalioso, os pais, irmãos e amigos ricos de abnegação desinteressada, os mantenedores do bem e da ordem, prosseguindo no programa de incessante evolução...

Após a disjunção celular, a consciência comanda o Espírito e o peso específico das vibrações, por afinidade, se encarrega de fixar cada um no quadro das necessidades evolutivas.

Não faltam, todavia, aqueles que, na Terra, objetam e recalcitram em torno de tais afirmações.

Não temos, porém, a pretensão de convencer este ou aquele aprendiz da vida em experiência libertadora.

Todos os que se demoram no plano físico defrontarão agora ou mais tarde as realidades espirituais e aprenderão de visu pelo processus da própria evolução, retificando opiniões, disciplinando observações, experimentando...

A morte a todos os aguarda e a vida é a grande resposta a todos os enigmas.

Preparar-se para esses imperiosos acontecimentos é tarefa inadiável, que ninguém pode desconsiderar.

Pensando nisso, a nossa irmã Otília, em páginas que endereça à sua filha, ainda envolta nos tecidos da carruagem física, reúne apontamentos da sua experiência pessoal, que agora apresentamos em letra de forma, guardando a esperança de, com essas narrativas, oferecer advertências e considerações — considerações e advertências, aliás, que vêm sendo repetidas desde os primórdios dos tempos e que, no Evangelho como na Codificação Kardequiana, atingem sua mais vigorosa expressão — aos que trafegam desatentos ou àqueles que buscam consolação e alento na Doutrina dos Espíritos.

A missivista não teve em mente apresentar novidade, considerando mesmo que novidade é tudo aquilo que alguém ignora, já que, "nada há de novo sob a luz do sol", sendo a revelação sempre a mesma através das idades, surgindo hoje e ressurgindo amanhã, com aspecto, caráter e roupagens novas.

Existem aqui e além-mar, em letras portuguesas e estrangeiras, excelentes informações sobre a vida além da morte. Muito se disse e muito se dirá ainda. Faz-se necessário, no entanto, repetir, divulgar, acostumar os homens às questões espirituais.

A experiência da nossa mensageira desencarnada foi individual, e a colheita que é sempre pessoal, pode, entretanto, sugerir lições e ensejar abençoadas meditações ao leitor interessado.

Em um momento sequer desejou a amiga espiritual fazer obra de literatura, por motivos facilmente compreensíveis. Ditou estas páginas nas sessões hebdomadárias do Centro Espírita Caminho da Redenção, entre os meses de março de 1958 e agosto de 1959, na sua quase totalidade em presença daquela a quem foram dirigidas.

Ao trazer o presente livro à divulgação fazemo-lo, também, homenageando o mestre lionês Allan Kardec, por ocasião do próximo centenário de A Gênese, em a qual se estudam questões transcendentes, palpitantes e atuais à luz clara e meridiana da razão e da ciência.

Nossa homenagem singela reflete, mais que outro sentimento, o da gratidão mais profunda, e do respeito mais acendrado ao vaso escolhido, que se fez missionário do CONSOLADOR, no justo instante em que o espírito humano se desgoverna e se amesquinha ante as notáveis conquistas do engenho técnico, sem, contudo, os seus correspondentes morais.

A mensagem consoladora e clara das Vozes do Céu tem regime de urgência e, ante as perspectivas atraentes do amanhã com Jesus, formulamos votos de paz com as nossas sinceras escusas àqueles Espíritos valorosos, perspicazes e estudiosos que, certamente, não encontrarão aqui o de que necessitam para sedimentação da cultura ou ampliação do conhecimento.

Exorando ao Senhor que nos abençoe a todos, discípulos sinceros que buscamos ser de Jesus Cristo, sou a servidora, Joanna de Ângelis Salvador, 17 de julho de 1967. ESCLARECIMENTOS OPORTUNOS "Vi logo que cada Espírito, em virtude de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, me desvendava uma face daquele mundo, do mesmo modo que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando habit antes seus de todas as classes, não podendo um só, individualmente, informar-nos de tudo (Allan Kardec — Obras Póstumas — 11a Edição da FEB — Página 241.) À medida que recuperava a tranquilidade Além da Morte, quando as vibrações da carne se diluíam no grande mar do esquecimento, longe das impressões mais fortes do plano físico, desejei retornar aos seres queridos que ficaram na retaguarda, para narrar-lhes a minha experiência.

Examinando, porém, as limitações que me incapacitam, compreendi, de cedo, a impossibilidade que dificultava a realização do meu desejo. Sem cultura intelectual acadêmica, habituada apenas aos problemas do lar humilde, sempre distante das belas letras, não fui aquinhoada, quando na Terra, com as dádivas do Saber. Desejava, entretanto, falar aos companheiros de luta, adverti-los, mostrar-lhes as surpresas da vida espírita, oferecer-lhes as impressões pessoais, concitando-os ao trabalho renovador que o Espiritismo oferece a todos, no abençoado campo das realizações imperecíveis.

Embora informada pela Doutrina Espírita de que a vida continua va, esclarecida pela Obra de André Luiz, a que me afeiçoara quando encarnada, esbarrei, assim mesmo, com surpresas e inquietações, à semelhança de turista confuso que, em visita à grande cidade, embora conduza no bolso o livro-guia, procura insistente e desarvoradamente endereços que não sabe onde se encontram...

Quantas aflições e remorsos, receios e ansiedades visitaram minha alma, depois do túmulo, não sei dizer.

Constatei que a vida prossegue sem grandes modificações, oferecendo a cada alma, no cadinho evolutivo, as bênçãos ou punições de que se faz credora.

Atormentados do sexo continuam ansiosos.

Escravos do prazer prosseguem inquietos.

Servos do ódio demoram-se em aflição.

Companheiros da ilusão permanecem enganados.

Aficionados da mentira dementam-se sob imagens desordenadas. Amigos da ignorância caminham perturbados.

Somente as almas esclarecidas e experimentadas, na batalha redentora, caminham em liberdade, desfrutando a dádiva da esperança entre sorrisos e realizações.

Verifiquei o significado real da Fé. Ao invés de ser aceitação passiva de crença religiosa é, antes, programa de ascensão e renovação interior.

Conduzir a claridade pura do Cristianismo, na mente e no coração, é alta concessão do Céu que ninguém desrespeitará impunemente.

E afirmei a convicção de escrever algumas páginas sem a preocupação de fazer literatura nem apresentar soluções de transcendência metafísica aos velhos problemas da alma, tão bem estudados e debatidos desde há muito, nas Escolas que se preocupam com o assunto.

Objetivei, apenas, dar mais um grito de alerta, dirigindo à minha própria filha os apontamentos que agora vêm a lume. Deixei que a mente evocasse as cenas que vivi Além da Morte, amparada pelas irmãs Liebe e Zélia, benfeitoras incansáveis que se encarregaram, desde as primeiras horas, de me sustentar a alma atribulada, ensej ando-me a longa caminhada de restabelecimento.

Não me inspirou, uma só vez, a ideia de escrever um livro, considerandome, conforme já o disse, incapaz de o fazer.

Amparada pelo meu Guia Espiritual, foi-me possível, entretanto, realizar o mínimo que agora ofereço ao caro leitor para a sua meditação, rogando-lhe desculpas. São anotações de um coração para outro coração que se encaminha para o túmulo. São expressões que você mesmo encontrará mais tarde, queira ou não, acredite ou não. São referências escritas com lágrimas e sob terríveis acúleos de dor. Não acalento outro anseio, senão despertar alguém na carne para a responsabilidade da vida, durante a travessia física no barco da existência planetária.

Perdoe-me, pois, o leitor interessado em aprofundar conhecimentos, se pouco lhe pude oferecer.

Conservo a alegria de trazer as minhas páginas a você, animada pelas expressões do Codificador do Espiritismo quando afirma "que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando habitantes seus de todas as classes...


Esse é o país da minha atual residência, relatado pelo amor de uma mãe que na vanguarda adverte a filha em caminho da Eternidade, apontando o velho roteiro evangélico, sempre atual:


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