Conflitos Existenciais - Série Psicológica Vol. 13

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CAPÍTULO 16

Estresse

Razão de ser do estresse

Numa investigação realizada por Selye, no ano de 1948, foi aplicado o termo estresse como a pressão exercida sobre o indivíduo em forma de carga de energia superior à sua capacidade de resistência emocional, que produz distúrbio de conduta.

Desse modo, qualquer tipo de carga, pressão ou força que se vivência, passou a ser considerada como passível de natureza estressante.

Essa carga não tem uma característica isolada, mas pode ser considerada como a soma de fenômenos e ocorrências não específicas, que se pode manifestar como prejuízo ou defesa.

Apresenta-se em localização especial, quando se trata de um problema orgânico, ou de maneira geral, em forma de síndrome, resultado de diversas coerções que não são liberadas.

Numa sociedade competitiva e angustiada como a atual, o fenômeno do estresse generaliza-se em razão do volume de compromissos, da escassez de tempo para os atender, da busca desesperada por melhores salários e comodidades, de divertimentos e de prazeres, dando lugar à ansiedade, produzindo culpa e desarmonizando a estrutura emocional.

Essas ocorrências produzem neurastenia, cansaço exagerado, sucessão de problemas trágicos e perturbadores, que deságuam no comportamento que se desorganiza, gerando transtornos e distúrbios neuróticos mais graves.

Por outro lado, quando se experimenta uma grande tensão para livrar-se do estresse, inevitavelmente o indivíduo torna-selhe vítima, porque essa também é uma forma de pressão, muitas vezes superior à capacidade de resistência emocional.

Nesse caso, podem-se contabilizar as fugas dessas constrições, o distanciamento de qualquer tipo de ameaça, a negação para identificar o perigo, a luta contra o medo de acontecimentos danosos, gerando sobrecarga emocional que termina expressando-se como uma forma de estresse.

Não apenas as ocorrências aflitivas encarregam-se de inquietar, mas também a ansiedade em torno daquilo que se almeja, pelo que se afadiga, pelas conquistas realizadas que culminam no êxito, por exemplo, no matrimônio, na conclusão de um curso, na aquisição de uma carreira, na glória de um empreendimento...

Assim sendo, as atividades psicológicas positivas e desejadas, quando conseguidas, podem também transformar-se em fatores geradores de estresse, portanto, porta aberta a situações cansativas e desmotivadoras.

A mãe que se afeiçoa ao filho e, na viuvez ou não, se lhe dedica com aferrado sentimento de amor-posse, que se completa emocionalmente através das realizações que ele lobriga, quando o vê crescido, avançando para a independência, para a ruptura do cordão umbilical, passa a estressar-se, a mergulhar no poço da existência sem sentido, porque todas as suas aspirações foram direcionadas para aquele mecanismo de autorrealização, de egotismo exacerbado.

Mais terrível apresenta-se a questão, quando o filho masculino ou feminino - procura a realização emocional e social através do casamento.

Para essa mãe, a perda constitui um sofrimento estressante e devastador, que enfurece ou deprime, vendo, na pessoa que lhe arrebatou o motivo existencial, um inimigo que deve ser destruído ou, pelo menos, vencido, a fim de recuperar a sua segurança emocional.

O funcionário que se entrega à empresa e, lentamente, passa a vivê-la com intensidade, acreditando-se indispensável, e vê-se, de um para outro momento, descartado, substituído por outrem mais bem-preparado, com novos recursos para aplicação, é tomado pelo estresse da amargura e tomba no fosso do desespero.

Tem a impressão de que a sua existência perdeu a razão de ser vivida, porque centrou no trabalho a que se afeiçoou todos os interesses e motivações pessoais.

Quando, porém, a morte arrebata o ser querido, sem que tenha havido uma preparação psicológica para o fenômeno do falecimento dos órgãos, é inevitável o transtorno gerado pelo estresse da pressão interna do sofrimento, que parece impossível de ser suportado.

A existência humana apresenta-se portadora de um elenco de quase infinitas possibilidades que devem ser experimentadas, a fim de tornar-se digna e merecedora de ser vivida saudavelmente.

O ego, no entanto, estabelece os seus parâmetros e assoberbase de ilusões e de posses mentirosas que a realidade se incumbe de desfazer, porque sem estruturas legítimas, fundamentadas em quimeras, em perturbações e sonhos infantis não superados pela idade adulta.

O aprofundamento da identificação da autoconsciência faculta a valorização do Si-próprio (Self), ampliando a esfera de aspirações e de metas que devem ser realizadas.

As experiências sociais e humanas, os desafios e dificuldades, as lutas e desacertos não deveriam constituir força estressante, porque têm por objetivo amadurecer a capacidade emocional, fortalecendo-a para embates mais vigorosos que devem ser travados até o momento da completude.

Cada experiência existencial converte-se em valor emocional que se soma aos anteriores, propiciando crescimento pessoal e realização interior.

Ninguém alcança patamares de equilíbrio sem passar pelos testes de lutas edificantes.


Processos e mecanismos estressantes

Existe, sem dúvida, em muitos organismos, certa predisposição para a desvitalização das energias, das forças em que se firmam os conteúdos emocionais.

Com relativa facilidade, os indivíduos portadores dessa constituição assoberbam-se de aflição ante acontecimentos que não têm o menor sentido perturbador, vítimas que se fazem de injunções que temem enfrentar ou que rejeitam de forma consciente, derrapando em estresses.

Frágeis, psicologicamente, não conseguem sair do período infantil em que necessitam da mãe superprotetora, do ninho doméstico defensor, sem haver-se preparado para a vida adulta, inevitavelmente constituída de desafios necessários à evolução.

Desacostumados à responsabilidade ou dominados pelo excesso de escrúpulos, alguns deles, autodenominados como perfeccionistas, gostariam de um mundo por eles elaborado, no qual os acontecimentos obedecessem a padrões agradáveis ou a ordenamentos geométricos submetidos aos seus critérios de avaliação.

Sendo, porém, os grupos sociais constituídos de bió-tipos variados e de necessidades diversas, com objetivos e imposições específicos, esses indivíduos recuam diante dos enfrentamentos ou estressam-se com os fenômenos gerais, amargurando-se e desgastando-se de maneira enfermiça.

Há uma tendência, possívelmente inconsciente, em alguns pacientes, de cultivarem o masoquismo emocional, escorregando para a autocomiseração, a necessidade de acolhimento em colo materno, pensando em transformar a sociedade, que lhes parece adversária, em protetora piegas dos seus desfalecimentos morais.

Negam-se aos combates que são essenciais para o autocrescimento e valiosos para a visão psicológica da existência humana e suas finalidades libertadoras.

Acumulam ressentimentos em razão de fracassos banais, que culpam aos demais, vivem ressumando infelicidade, que mais se encontra na imaginação do que na realidade, tendo em vista o corpo saudável, pelo menos sem afecção nem infecção, que deveria ser aplicado em atividades que o revigorassem, impulsionando os sentimentos a voos mais elevados na busca de realizações enobrecedoras.

Acreditam-se sem sorte, marcados por carmas dolorosos e, enquanto lamentam e mantêm a ociosidade, mais se enfermam e mais se desestruturam.

É natural que qualquer acúmulo de preocupação, de tarefa, de compromissos transforme-se em carga estressora.

Desacostumados ao trabalho continuado, aclimatados a situações protecionistas, sem experiências de esforço pessoal, anelam pelo que não lutam por conseguir, demorando-se em reflexões pessimistas e lamentáveis, quando se deveriam afeiçoar às realizações, em tentativas contínuas de aprendizagem de comportamento até a conquista dos objetivos, sejam quais forem que tenham em pauta.

A autoconsciência é responsável pelo processo de mais fácil evolução do pensamento e das realizações humanas, porque faculta entender os significados psicológicos existenciais e os mecanismos que devem ser utilizados, a fim de serem logrados.

A dependência de outrem e a transferência das suas responsabilidades para outrem, a necessidade de gurus e guias, ocultam a comodidade mental, moral e emocional, disfarçadas de confiança e de afeto por aqueles que lhes sirvam de condutores.

A experiência, no entanto, é pessoal e intransferível, que cada qual terá que vivenciar, a fim de aprender, à semelhança do medicamento que deve ser utilizado pelo paciente que busca a cura e não por aquele que o ama, em forma de comportamento infantil absurdo.

Essa insegurança, essa forma de manipulação emocional, decorre de culpa e de fuga no passado aos deveres que não foram cumpridos e que, agora, em nova reencarnação, deverão ser enfrentados para incorporar-se às conquistas evolutivas a que todos os Espíritos são convocados.

Ninguém evolve por outro, sendo o processo é individual e exclusivamente pessoal.

Esses indivíduos imaturos, quando amam, desejam que os seus afetos assumam-lhes as responsabilidades, resolvam os seus problemas, enfrentem os seus dilemas, vivam por eles, demonstrando total desconserto emocional.

Neles, as enfermidades, os problemas de relacionamento, as lutas no trabalho, a convivência com os demais, sempre assumem volumes exagerados, porque desejam facilidades e comodidades, atribuindo-se importância demasiada, que estão longe de possuir, ou fogem para a intriga, a maledicência, sempre considerando-se vítimas de perseguições que estão na imaginação e no egotismo doentio.

Estão normalmente estressados com pequenas ocorrências, não suportando os necessários trabalhos de renovação e de reequilíbrio, que dependem exclusivamente deles.

Na correria dos dias modernos, em que as máquinas inteligentes dominam o mercado humano, a criatura é convidada a assumir a sua posição de comando e de superioridade em relação aos engenhos por ela mesma criados para facilitar-lhe a vida, não se permitindo esmagar pelas injunções que se apresentam desgastantes.

Não há lugar nem tempo favoráveis para considerações exageradas, nem para convívios conflitivos, nem para relacionamentos doentios.

Porque todos os indivíduos são portadores de problemas, é natural que cada qual procure estímulo e orientação, melhores situações e acompanhamentos saudáveis, em vez de aceitarem quem lhes explore os valores e permaneçam na inatividade ou no estado de dependência mórbida.

Inegavelmente, são muitos os fatores que levam ao estresse, mas, ao mesmo tempo, inúmeros os recursos para a liberação das cargas opressoras, quando se deseje a mudança de comportamento e a aquisição do bem-estar.

É inevitável a ansiedade em diversas situações, no entanto, sob controle e lucidez, evitando-se que atinja níveis psicológicos e orgânicos doentios.

Quando se assentam os ideais em objetivos superiores e se realizam reflexões saudáveis e otimistas, naturalmente se adquirem forças morais para saber-se selecionar os fenômenos perturbadores daqueles que têm finalidades edificantes.

Desse modo, é possível experiênciar a ansiedade com equilíbrio, sem sofrimento nem distonia, consciente de que todo processo exige um tempo próprio para realizar-se, e que nem sempre as questões se resolvem conforme parece a cada um, mas de acordo com as circunstâncias e possibilidades que lhes são próprias.

Essa compreensão faculta a administração do processo de ansiedade dentro dos limites naturais e próprios das ocorrências do cotidiano.

Educar, portanto, a mente e o sentimento, constitui dever inicial para a superação de qualquer mecanismo estressante.


Terapia para o estresse

A crença na vida futura, por consequência, na imortalidade do Espírito e na sua destinação gloriosa, constitui a mais adequada autoterapia preventiva em relação ao estresse, bem como para a sua superação.

Isto porque, ultrapassando os limites imediatistas da existência orgânica, essa convicção dilata a perspectiva de felicidade, demonstrando que, não sendo conseguida de imediato, sê-lo-á, sem dúvida, um passo à frente, em razão da dilatação do tempo e da realidade do Mais Além, facultando realizações contínuas, ricas de experiências negativas e positivas, que definem o rumo da plenitude.

Mediante essa atitude mental e emocional, surge a alegria, em face de demonstrar que a dificuldade de hoje é o prelúdio da conquista de amanhã, qual ocorre com a flor que se estiola para libertar o fruto e a semente que nela jazem adormecidos.

Em vez de uma existência linear, que se inicia no berço e termina no túmulo, essa decorre da vida em si mesma, que é preexistente e sobrevivente à disjunção molecular, resultando em aprendizagem contínua, na qual sucedem-se êxitos e aparentes fracassos que culminam em conquistas insuperáveis.

Ninguém consegue atingir qualquer meta que delineie sem passar por acertos e erros, elegendo os processos favoráveis e eliminando aqueles equivocados, sem desanimar, insistindo até a realização dos seus objetivos.

Desse modo, a fé no futuro acalma as aflições momentâneas sem o apoio do conformismo doentio, porém, proporcionando a coragem para vencer os impositivos perturbadores da atualidade.

Essa postura impede a instalação da ansiedade, em considerando-se a grandiosidade do tempo sem o imediatismo da ilusão.

Ao mesmo tempo, enseja uma planificação de largo porte, sem os incômodos da angústia ou da precipitação.

As tensões, nada obstante, apresentam-se inevitáveis, em razão do curso dos acontecimentos que não pode ser detido.

Superada uma ocorrência, logo outra acerca-se, isto quando não se atropelam na velocidade dos fenômenos humanos.

A maneira, porém, como são analisadas para serem aceitas, responde pela emoção com que são enfrentadas.

Quando o indivíduo se educa na compreensão dos deveres que abraça, deduz, de imediato, quantos esforços devem ser envidados, a fim de que se consumem com eficiência os resultados em pauta.

Programa, então, como enfrentar cada fase, a forma de executar cada tarefa, evitando-se a fadiga excessiva, o desgaste emocional, a irritabilidade que decorrem, normalmente, da indisciplina e da rebeldia no trato e na convivência com as demais pessoas, com os deveres assumidos.

Quando ocorrem situações estressantes que são normais, de imediato cabe-lhe a renovação de ideias, a mudança de realização, a busca do refúgio da prece renovadora, que robustece de energias psíquicas e emocionais, vitalizando os sistemas físico e psicológico, momentaneamente afetados.

O ser humano necessita do trabalho que o dignifica, mas também do repouso que lhe renova as forças e faculta-lhe reflexões para bom e compensador desempenho.

Desse modo, é impositivo, para a preservação ou conquista da saúde, que se estabeleçam períodos para férias, para relaxamento emocional, para mudanças de atividades, para exercícios físicos liberadores das tensões orgânicas e psicológicas, agilizando o corpo mediante caminhadas, massagens, natação com a mente liberada dos problemas constritores.

É justo que o ser humano não olvide dos limites da sua condição de reencarnado, portanto sob imposições do carro orgânico, evitando os sonhos de super-homem, que alguns se atribuem.

Musicoterapia e socorro fraternal ao próximo representam igualmente recursos valiosos para que a pessoa desencarcere-se da carga tensional e experimente alegria de viver e de servir, sentindo-se útil.

Ioga e meditação, acupuntura e outros recursos valiosos, denominados alternativos, contribuem eficazmente para o relax, a renovação das energias gastas.

Sempre quando alguém se oferece ao Bem, ei-lo tocado pelos eflúvios da saúde e da harmonia, autorrealizando-se e aos demais ajudando.

A busca da beleza, sob qualquer aspecto considerada, contribui para o retorno ao bem-estar, superando o estresse e a inquietação.

Apesar desses recursos, se o paciente permanecer em transtorno por estresse, não deve adiar a assistência do psicoterapeuta, a fim de evitar a instalação de problemas neuróticos mais graves.

Esforçar-se por viver com alegria em qualquer conjuntura é terapia preventiva e libertadora para os males do estresse.




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