Antologia Mediúnica do Natal

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Capítulo LXXIX

Na noite de Natal

Nome literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu no Rio de Janeiro, em 1902, e faleceu em 30 de Agosto de 1933. Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava serem os seus versos de origem mediúnica. Glorificou o Amor, a Renúncia, o Sacrifício e a Humildade, em obras como: Crisálida, Grimalda de Violetas, Sensibilidade.


MINHA LUZ

Eu era, Dor, a alma rubra e inquieta,

A pomba predileta

Do prazer, da ilusão e da alegria…

Meu coração, alegre cotovia,

Saudava alvoroçado

O segredo da noite e a luz clara do dia,

Quando chegaste de mansinho,

Pisando sutilmente o meu caminho…


E eu te enxerguei, despreocupada,

Em meu engano, em minha fantasia:

Primeiramente,

Foste, austera e inclemente,

A um dos belos tesouros que eu possuía

E mo roubaste para sempre…

Em fúria iconoclasta,

Como o simum que arrasta

As cidades repletas de tesouros

Confundindo-as no pó,

Foste aos meus ídolos mais caros,

Destruindo-os sem dó.


Prosseguiste, ó divina estatuária,

Na tua obra silente e solitária,

E quebraste

Minhas cítaras de ouro

Meus mármores de Paros,

Meus cofres de alabastros,

Minhas bonecas de biscuí,

Minhas estatuetas singulares…

E humilhaste

Meus sonhos de mulher e de menina,

Que eu pusera nos astros

Em meio às melodias estelares!


Mas, desde que chegaste,

Foste a sombra divina

Que acompanhou meus passos ao sepulcro…


Tudo sofri,

Ó Dor, por te querer,

Porque depois que vieste

Qual pássaro celeste

Para abrir rosas de sangue no meu peito,

Encheste a minha vida

De um estupendo prazer, quase perfeito!


Aos poucos me ensinaste a abandonar

Meus prazeres fictícios,

Trocando-os pela luz dos sacrifícios!

Por tudo eu te bendigo, ó Dor depuradora,

Porque representaste em meu destino,

De alma sofredora,

O fanal peregrino

Que me guiou constantemente

Através das estradas espinhosas

Para as manhãs radiosas

Da Luz Resplandecente…


Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa,

Pois da volúpia estranha dos teus braços,

Vim pelas mãos da morte complacente

Para a vida sublime dos Espaços!…



AOS ESPÍRITOS CONSOLADORES

Donde éreis vós, ó formas imprecisas

De arcanjos tutelares,

Cujas vozes suaves como brisas

Trouxeram-me nas dores,

No auge do meu sofrer, nos meus penares,

A irradiação de brando refrigério?!…


Frontes aureoladas de esplendores,

Seres cheios de amor e de mistério,

Cujas mãos compassivas

Ungiram meu coração resignado

Com o bálsamo do olvido do passado,

E com os místicos olores

Das meigas sempre-vivas

Da fé mais luminosa e mais ardente…


Seríeis o fantasma imaginário

Da mórbida exaltação dalma do crente?

Não, porque sois os cireneus piedosos

Dos que vão em demanda do Calvário

Da Redenção, nos sofrimentos rudes:

Vindes das mais remotas altitudes

De sublimados mundos luminosos!…


Seres do Amor, jamais traduziria

O cântico de luz

Que trouxestes ao leito da agonia

Que eu transpus,

Cheia de desenganos e gemidos!…

Verto ainda os meus prantos comovidos

Lembrando-me do vosso Stradivárius,

Repetindo as cadências dos hinários

Dos orbes da Ventura e da Harmonia,

Onde habitais, glorificando o Amor

Que dalma faz um ninho de alegria

E foco de esplendor!


Em que sol deslumbrante, em qual esfera

Viveis a vossa eterna primavera?

Ó irmãos consoladores,

Que vindes confortar os pecadores

Penitentes da vida transitória,

Dai-me um pouco de luz da vossa glória,

Estendei-me uma única migalha

Da vossa paz, que nutre e que agasalha

Os corações iguais ao meu!…


Tenho sede do amor que enfeita o Céu!

Espíritos da luz radiosa e infinda,

Minhalma é fraca e pobre ainda;

Todavia, imortal,

Quero ter dessa luz resplandecente,

E quero embriagar-me inteiramente

Com os vinhos da alegria celestial.


CIGARRA MORTA

Chamam-me agora aí

Cigarra morta,

E não podia haver melhor definição,

Porque caí estonteada à porta

Do castelo em ruínas,

Do desencanto e da desilusão!…


Minhas futilidades pequeninas…

Meus grandes desenganos…

Eu mesma inda não sei

Se é ventura morrer na flor dos anos…

Sei apenas que choro

O tempo que perdi,

Cantando em demasia a carne inutilmente;

E vivo aqui somente,

De quanto idealizei

De belo, de perfeito, grande e santo,

Que inda hei-de realizar

Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.


Dá-me força, Senhor,

Para concretizar meu anseio de amor:

Evita-me a saudade

Da minha improdutiva mocidade!

Eu não quero sentir,

Como cigarra que era,

A falta das canículas doiradas

Sob a luz de ridente primavera.

Já que tombei cansada de cantar,

Calando amargamente,

Perdoa, Deus de Amor, o meu pecado:

Que eu olvide a cigarra do passado,

Para ser uma abelha previdente.


ERA UMA VEZ…

Era uma vez Carmen Cinira.

Um coração

Cheio de sonho e flor, que mal se abrira

Nos jardins encantados da ilusão…

Estraçalhou-se para sempre

Na voragem

Das trevas, dos abrolhos!…


Era uma vez Carmen Cinira…

Uma suposta imagem

Da perene alegria,

Mas que trouxe em seus olhos,

Eternamente,

Essa amarga expressão de alma doente,

Cheia de pranto e de melancolia!…

Carmen Cinira! Carmen Cinira!

Que é da minha cigarra cantadeira?

Embalde te procuro.

Porque cantaste assim a vida inteira,

Cigarra distraída do futuro?

Perturbada,

Aturdida,

Busco a mim mesma aqui nestoutra vida…

Onde estou, onde estou?

Minha vida terrena se acabou

E sinto outra existência revelada!


Não sei porque me sinto amargurada…

Sinto que a luz me guia

Para a paz, para um mundo de alegria.

Mas, ó imortalidade,

Se na Terra eu te via

Como a aurora divina da verdade,

Não julguei que inda a morte me abriria

Esse cenário deslumbrante

De outros sóis e de outros seres,

E vejo agora

Que não amei bastante,

E não cumpri à risca os meus deveres!


A fagulha de crença

Que eu possuía

Devia transformar numa fornalha imensa

De fé consoladora,

E incendiar-me para ser luzeiro.


Mas, ó Senhor da paz confortadora,

Eu vi chegar o dia derradeiro

Em minha dor, na máscara de festa,

E a morte me apanhou

Como se apanha uma ave na floresta.

Experimento a grande liberdade!

Todavia, Senhor, ampara-me e protege

Minha triste humildade!


Eu te agradeço a paz que já me deste,

Mas eis que ainda te imploro comovida,

Porque me sinto em fraca segurança;

Deixa que eu guarde ainda nesta vida

Meu escrínio de estrelas da Esperança.


À JUVENTUDE

Juventude linda e ardente,

Mocidade querida que eu exorto,

Meu coração de carne, esse está morto,

Mas minhalma que é eterna está presente.

Zelai pelo plantio, ó juventude,

Das flores perfumadas da virtude,

Porque depois dos sonhos terminados

Em nossos ermos e últimos caminhos,

Ai! como nos ferem os espinhos

Das belas rosas rubras dos pecados!


O VIAJOR E A FÉ

— «Donde vens, viajor triste e cansado?»

— «Venho da terra estéril da ilusão.»

— «Que trazes?»

— «A miséria do pecado,

De alma ferida e morto o coração.

Ah! quem me dera a bênção da esperança,

Quem me dera consolo à desventura!»


Mas a fé generosa, humilde e mansa,

Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura:

— «Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos,

Que esclarece e conforta os sofredores!…

Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos,

Mas com Jesus um espinho tem mil flores!»


O SINAL

Quando chegamos do País do Gozo,

Nossa alma sem repouso

Traz o sinal das trevas do pecado.


Nossa alegria é um riso envenenado.

A palavra disfarça o coração

E a nossa dor é desesperação.


Tudo é sombra. A verdade não tem voz.

Muita vez, tudo é queda dentro em nós.


Mas os que vêm do Mundo dos Deveres

Guardam a luz de místicos prazeres.

Não têm palmas da Terra impenitente…

Como tudo, porém, é diferente!…


Sua alegria é um fruto adocicado,

Sua palavra é um livro iluminado,

Sua dor alivia as outras dores.


Trazem o amor de todos os amores,

Revelando na vida transitória

O sinal do Calvário aberto em glória!


NA NOITE DE NATAL

Noite de paz e amor! Repicam sinos,

Doces, harmoniosos, cristalinos,

Cantando a excelsitude do Natal!…

A estrela de Belém volta, de novo,

A brilhar, ante os júbilos do povo,

Sob a crença imortal.


De cada lar ditoso se irradia

A glória da amizade e da harmonia,

Em festiva oração;

Une-se o noivo à noiva bem-amada,

Beija o filho a mãezinha idolatrada,

O irmão abraça o irmão.


Dentro da noite, há corações ao lume

E há sempre um bolo, em vagas de perfume,

Sob claro dossel…

Nascem canções e flores de mansinho,

Em édenes fechados de carinho,

De esperança e de mel.


Mas, lá fora a tristeza continua…

Há quem chora sozinho! em plena rua,

Ao pé da multidão;

Há quem clama piedade e passa ao vento,

Ralado de tortura e sofrimento,

Sem a graça de um pão.


Há quem contempla o céu maravilhoso,

Rogando à morte a bênção do repouso

Em terrível pesar!

Ah! como é triste a imensa caravana,

Que segue aflita, sob a treva humana

Sem consolo e sem lar…


Tu que aceitaste a luz renovadora

Do Rei que se humilhou na manjedoura

Para amar e servir,

Volve o olhar compassivo à senda escura,

Vem amparar os filhos da amargura,

Que não podem sorrir.


Desce do pedestal que te levanta

E estende a mão miraculosa e santa

Ao desalento atroz;

Para unir-nos no Amor, fraternalmente,

Desceu Jesus do Céu Resplandecente

E imolou-se por nós.


Vem medicar quem geme na calçada!…

Oferece à criança abandonada

Um velho cobertor;

Traze a quem sofre a lúcida fatia

Do teu prato de sonho e de alegria,

Temperado de amor.


Visita as chagas negras da mansarda

Onde a miséria súplice te aguarda

Em nome de Jesus.

Há muita criança enferma, quase morta,

Que só pede um sorriso brando à porta,

Para tornar à luz.


Natal!.. Prossegue o Mestre, de viagem,

Em vão buscando um quarto de estalagem,

Um ninho pobre em vão!…

E encontra sempre a cruz, ao fim da estrada,

Por não achar socorro, nem pousada

Em nosso coração.




Carmen Cinira
Francisco Cândido Xavier


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