Assim Dizia o Mestre

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CAPÍTULO 15
Ilustração tribal

"UM HOMEM TINHA DOIS FILHOS. . . "


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A rainha das parábolas de Jesus, chamada, geralmente, a do filho pródigo, não devia ser focalizada num capítulo como este, mas numa obra monumental;

porque essa parábola representa um dos mais estupendos documentos do drama multimilenar da evolução do homem rumo a Deus.

O que, em geral, se diz desta parábola, nas igrejas e nos colégios, é apenas o aspecto moral da mesma – mas por debaixo dessa conhecida superfície se estende a incomensurável profundidade cósmica que só uma intensa intuição espiritual pode atingir em silenciosa vivência.

Quem é esse jovem inexperiente que deseja abandonar a casa paterna?

Quem é esse pai que não tenta dissuadi-lo do seu intento com uma só palavra?

E por que não aparece nenhuma mãe a chorar?

E que significa essa "porção de substância" a que o filho mais jovem diz ter direito?

Por que o pai não pede ao menos que o jovem aventureiro lhe deixe o endereço do seu paradeiro? Por que, durante a longa ausência, não lhe manda um mensageiro para saber da sua situação?

Nada disso acontece. A parábola do filho pródigo está envolta em mistério e permeada de enigmas. Tudo que a nossa inteligência analítica teria esperado acontecesse não acontece – e nada daquilo que acontece teríamos esperado.

É que essa parábola é, mais que outra qualquer, obra de gigante e de gênio.

O perfeito paralelo dessa parábola se encontra nas primeiras páginas do Gênesis – Moisés e o Cristo traçam o roteiro eterno da humanidade em evolução, esses dois intérpretes máximos do sub e do superconsciente da humanidade. Dia Moisés, no Gênesis, que o homem do Éden transpôs a fronteira dessa sua vida subconsciente e entrou na zona egoconsciente, graças ao despertar da "serpente" da inteligência. É a história da egoficação luciférica do homem, mais tarde completada por sua cristificação espiritual.

É o drama telúrico-cósmico de Lúcifer e Logos, a trajetória da inteligência e da razão.

Quando a inteligência desperta no homem, começa ele a afastar-se da "casa paterna", inicia o seu movimento centrífugo, porque sente o despertar da sua personalidade, da autonomia do ego personal, que só se pode desenvolver plenamente no longínquo ateísmo de uma separação consciente de seu centro.

Nesse estágio evolutivo sente o homem a imperiosa necessidade de proclamar em cheio a sua independência, o seu afastamento da escravizante soberania de Deus – falou a "serpente", e o homem lhe escutou a voz sedutora. O homem abandona o Éden da casa paterna, na crescente consciência do seu ego luciférico, e ainda longe do seu Eu crístico.

E começa o grande drama da evolução luciférico-crística, através do qual alguns conquistam o mais alto Evereste do Himalaia, ao passo que outros se enamoram das sedutoras esplanadas da montanha ou perecem nos tenebrosos precipícios que a rodeiam. . .

O "filho mais jovem" do pai reclama a "porção da substância" a que tem direito, diz a Vulgata latina; o texto grego do primeiro século diz que o jovem reclamou o "epibállon tés ousías", literalmente: "o que convém à natureza". Que conveniência é essa que o jovem reclama? É aquela parte da sua "ousia" (natureza) que exige evolução longe da casa paterna, isto é, o ego personal, o ego separatista, o Lúcifer, dormente na natureza humana.

E o pai entrega ao filho a parte da sua natureza, a porção da sua substância, o elemento personal para que vá e o desenvolva, segundo as eternas leis da Constituição Cósmica. O pai não protesta, não incrimina, não dissuade o filho, porque sabe que assim deve ser. Também, como poderia Deus protestar contra suas próprias leis? Como poderia ele proibir o homem de cometer a felix culpa e o peccatum necessarium (como diz a liturgia da Páscoa) de abandonar o Éden da sua primitiva inconsciência, cair no meio dum campo de "espinhos e de abrolhos" e, por fim, "esmagar a cabeça da serpente" rastejante para ser remido pela "serpente erguida às alturas"?. . .

E o jovem aventureiro lá se vai, firme e confiante, em demanda de "um país desconhecido" – a zona incógnita da personalidade, da autonomia do ego. Que região sedutora!. . .

E com isso principia a "vida dissoluta" e o "esbanjamento da substância" que levara da casa paterna. Esbanjar de fato essa substância não o consegue, geralmente, o homem; extinguir totalmente em si o elemento divino é difícil.

Mas o homem, nas vias da evolução personal, se esquece complacentemente da sua verdadeira "ousia" (natureza) divina e se porta como simples personalidade humana, autônoma. O ego humano, porém, é formado de corpo e mente. O corpo exige satisfações carnais; a inteligência se identifica com seus pensamentos de orgulho.

Passam-se longos anos no plano dessa evolução físico-mental. O homem atinge o extremo limite das suas satisfações; esbanja tudo – e então lhe sobrevém a grande fome de uma incompreendida insatisfação, não só com o mundo, mas sobretudo consigo mesmo. Mas o homem não sabe ainda com que encher esse vácuo; já sente, e cada vez mais dolorosamente, a insatisfação das coisas, dos sentidos e do intelecto, mas não encontrou ainda o objeto de uma verdadeira satisfação e felicidade.

Então tentou o jovem aventureiro em Terra estranha conquistar a felicidade agarrando-se – o texto grego diz "aglutinando-se", a Vulgata diz "aderindo" – a um cidadão daquela Terra flagelada por terrível carestia. Como um náufrago se agarra a uma prancha em pleno mar, assim se agarrou esse náufrago do ego à primeira tábua semipodre que pôde apanhar. Esse cidadão a que o filho pródigo se agarrou era habitante antigo nessa Terra, algum inveterado egoísta, que já não tinha a possibilidade de sentir a sua infelicidade, e era por isso horrorosamente feliz em sua miséria. . .

Mas esse velho cidadão satisfeito consigo mesmo, graças a sua obtusidade espiritual, não pôde transferir a sua infeliz satisfação para o infeliz insatisfeito que a ele se agarra; neste grande naufrágio, esse jovem não estava ainda suficientemente fossilizado no seu egoísmo para não sentir a sua profunda infelicidade. O velho egoísta satisfeito manda o jovem egoísta insatisfeito para sua granja, com a ordem de lhe guardar os porcos. Mas as vagens indigestas que os porcos comiam não eram alimento para a fome do jovem. Por algum tempo, sentado no meio da imunda manada, andou ele invejando o crepitante apetite com que os suínos mastigavam o seu grosseiro repasto – e veio-lhe o desejo de pelo menos "encher a barriga" – implere ventrem suum, como diz cruamente o texto – já que não podia matar a fome com as vagens que davam plena satisfação aos irracionais. Talvez os porcos não fossem felizes, cismava o jovem, mas ao menos não eram infelizes como ele. Tenta então camuflar com ilusões temporárias a sua infelicidade e narcotizar artificialmente uma voz interna que não lhe dava sossego. Mas não havia quem lhe desse essas vagens dos irracionais. Ele, o ser humano, não podia involver, regredir ao plano dos seres inconscientes, e gozar da infeliz felicidade que eles gozavam. . .

E essa impossibilidade de involução animalesca foi para o jovem o maior dos benefícios. Descer abaixo do nível do ego não lhe era possivel; ficar nesse nível lhe era insuportável tortura – resolveu então ultrapassar o seu próprio plano e evolver em vez de involver ou estagnar. . .

Seria de esperar que aquele cidadão que o contratara lhe desse pelo menos como passadio as vagens que os porcos comiam, mas, diz o Mestre admiravelmente, tal não aconteceu. Nem podia acontecer! Ninguém dá o que não tem. Como podia aquele velho egoísta, autocomplacente e satisfeito consigo, dar satisfação ao jovem egoísta, insatisfeito com o que era?. . .

E foi nesse transe doloroso, humilhante e angustiante, que aconteceu o mais glorioso dos prodígios: o jovem pastor de suínos "entrou em si mesmo". Depois do egresso da casa paterna, faz o ingresso para dentro do próprio Eu, preparando o regresso para sua definitiva redenção. Entre o egresso e o regresso está invariavelmente esse misterioso ingresso, esse "caminho estreito", essa "porta apertada", esse "fundo de agulha"; quem conseguir passar por esse desfiladeiro está salvo. "Entrou em si mesmo", pela primeira vez na vida, porque até essa data tinha ele estado fora de si, andando num círculo vicioso ao redor de si, pelas periferias do ego físico-mental. Depois de tantas evasões centrífugas, o jovem iniciando realiza, finalmente, a feliz invasão centrípeta; ultrapassa o ego humano e encontra-se com seu Eu divino!. . .

E terminou o ocaso em plena alvorada!. . .

E logo despontou na sua alma a verdade sobre si mesmo. Desanuviaram-se os horizontes. . . Dissiparam-se as trevas. . . Houve um grande fiat lux. . .

E fez-se a luz. . . O jovem viu claramente que ele não era escravo daquele tirano que o mandara guardar os porcos, nem era pastor de animais imundos; viu que isso não passava de funções temporárias e fictícias da sua humana personalidade, mas não era a verdadeira natureza da sua divina individualidade, do seu ser real. . . Verificou, com exultante surpresa, que ainda não esbanjara totalmente o "quinhão da sua natureza", era ainda filho daquele pai que abandonara; a centelha divina, que tanto tempo dormia sob as cinzas, acabava de romper em vívida chama, ao sopro da tempestade. . .

Conheceu a verdade sobre si mesmo – e a verdade o libertou. . .

Terminado o período egressivo do seu ego luciférico – começa o período regressivo do seu Eu crístico. . .

E a luz da verdade foi seguida de perto pela força da realização prática.

Levantou-se, deixou os porcos e seu velho tirano – e foi em demanda de seu pai. Este lhe corre ao encontro; por sinal que esperava o filho e tinha certeza de seu regresso. Abraça-o, beija-o, manda vestir-lhe a preciosa túnica, põe-lhe no dedo um anel e calçado nos pés – e segue-se grande solenidade, com banquete, música e bailados, isto é, todas as manifestações de alegria e júbilo pela plena realização de um homem.

Nisto chega do campo o filho mais velho e, sabendo do que se tratava, recusase a tomar parte nos festejos. Tenta o pai persuadi-lo da conveniência da solenidade, mas o filho continua inflexível; nada compreende do lado positivo do acontecimento; enxerga apenas o aspecto negativo e lembra que ele, há tantos anos, serve ao pai em perfeita obediência, e este nunca lhe dera um cabrito para ele celebrar um banquete com seus amigos.

O pai lhe fala no "irmão" dele; o despeitado, porém, só lhe chama "teu filho". E não tem ele razão? Já não existe afinidade entre os dois, entre o profano e o iniciado, entre o homem que espera recompensa por ser bom e aquele que é bom por amor.

Não basta cumprir os mandamentos do Pai, não basta evitar o mal e praticar o bem – tudo isso é necessário, mas não é suficiente para a plena realização do Eu – é necessário ser bom, que é incomparavelmente mais do que fazer o bem. Fazer o bem é do plano moral, indispensável como preliminar; é ainda a ética pré-mística sacrificial mercenária, que espera ser recompensada – o iniciado, porém, que é intimamente bom, não espera nada disto – ama simplesmente e é feliz nesse amor.

E assim termina o Mestre a mais profunda das suas parábolas – a parábola sobre a auto-realização ou cristificação do homem, que percorreu todos os estágios da sua evolução e culminou no homem integral.




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