Sermão da Montanha: 154

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CAPÍTULO 21
Ilustração tribal

"QUANDO ALGUÉM TE FERIR NA FACE DIREITA, APRESENTA-LHE TAMBÉM A OUTRA"


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E prossegue o divino Mestre: "Se alguém te roubar a túnica, cede-lhe também a capa! Se alguém te obrigar a andar com ele mil passos, vai com ele dois mil!

Se alguém te pede que lhe emprestes algo, não lhe voltes as costas!" O que aos profanos totais parece covardia e absurdidade, o que aos semiprofanos parece extraordinário heroísmo e virtuosidade, isto é, para o verdadeiro iniciado no espírito do Cristo, algo inteiramente natural e evidente.

Aqui atinge o Sermão da Montanha como um clímax.

Não se trata de praticar uma série de atos virtuosos externos, como parece à primeira vista – trata-se, sim, de crear dentro de si uma atitude, um clima, uma atmosfera permanente, a qual, de vez em quando, oportunamente, se revele em algum desses atos externos, transitórios. Uma vez que o "agir segue ao ser", e natural que um novo ser interno se manifeste num novo agir externo;

mas, o principal não é esse agir, o qual, sem o seu correspondente ser, será sempre algo sacrificial e artificial meramente moral e não profundamente místico, como é a alma do reino de Deus. O verdadeiro Cristianismo não é apenas um sistema ético de agir virtuosamente – é um novo modo de ser ontologicamente, uma completa e total transformação do indivíduo humano.

Esse novo "modo de ser", certamente, supõe uma série de "atos de agir", mas essa série de atos, embora necessários, não são suficientes para produzir essa atitude, esse ser. Os atos éticos são condição, mas não são causa dessa nova atitude crística. São necessários, mas não são suficientes para crear essa "nova creatura em Cristo", a qual, em última análise, é um carisma, um dom da graça divina. Ninguém pode merecer, causar, a graça; se assim fosse, ela não seria graça, que é de graça. Tudo que é merecido é pequeno – o que é de graça é grande.

O valor do homem não está naquilo que ele fez ou diz, externa e transitoriamente – mas está naquilo que ele é, interna e permanentemente. O externo e transitório é condição necessária, mas não é causa suficiente do interno e permanente. Causa suficiente é só o poder ou a graça de Deus. Em última análise, a "nova creatura em Cristo" é filtra de um novo fiat lux da onipotência creadora de Deus. Para que esse fiat lux possa ser proferido sobre as trevas abismais do ego humano, deve este ser receptivo, faminto, devidamente evacuado de si para poder ser plenificado por Deus – isto é condição preliminar necessária para que a causa divina possa agir.

Que alguém ofereça, de fato, a outra face a quem o feriu numa, ou ceda a capa a quem lhe roubou a túnica, é de somenos importância e depende das circunstâncias do momento – mas que ele mantenha em si essa firme e constante atitude de benevolência e beneficência, isto sim é importante e decisivo. E, no momento dado, essa atitude interna também se revelará em atos externos. "O agir segue ao ser. " Os atos externos mencionados por Jesus, no Sermão da Montanha, são o transbordamento natural e irresistível de uma poderosa atitude interna e permanente; brotam espontaneamente do tronco robusto de um novo ser, em forma de flores e frutos naturais de um novo fazer e dizer.

Isso, porém, supõe uma total transformação interior do homem, o cruzamento de uma fronteira invisível e decisiva, a transição irrevogável do velho ego luciférico para o novo Eu crístico.

O velho ego, antes de tudo, quer receber e ser servido – o novo Eu quer dar e servir.

O velho ego sente-se facilmente ofendido, preterido, vulnerado, por bofetadas, roubos, exigência de serviço indébito, pedido de empréstimo de dinheiro sem juros, por qualquer olhar ou palavra de desprezo, e, obediente à lei escravizante de ação e reação, de causa e efeito, revida ofensas, vinga injúrias, afirma a sua propriedade individual, acha covardia não ofender o ofensor, e valentia pagar mal por mal – por que tudo isto? Porque o pequeno ego, precisamente por ser pequeno e fraco, é escravo e vítima permanente duma tirania da qual não consegue emancipar-se, sobretudo porque essa escravidão é chamada "Liberdade". Quem chama saúde a doença não pode ser curado; o primeiro passo para a cura é reconhecer a doença como doença.

O primeiro passo para ser libertado da escravidão do ego é reconhecer essa escravidão como escravidão.

O Sermão da Montanha oferece ao homem a chave para abrir a sua velha prisão e entrar na "gloriosa liberdade dos filhos de Deus" – mas depende do próprio homem dar meia-volta à chave, para abrir a porta – ou para continuar preso.

O novo Eu crístico nada sabe de ofensas, injúrias, desprezos, propriedade individual, direitos, porque ele é todo invulnerável, livre, imune; nenhum fator externo lhe pode fazer mal, porque não o pode fazer mau.

Numa série de luminosas contraposições, frisa o Nazareno a derrota do pequeno ego humano e a vitória do grande Eu divino, isto é, a total autorealização ou cristificação do homem.

Quem não cruzou essa misteriosa fronteira que medeia entre o pequeno mundo do ego e o vasto universo do Eu, ou não é capaz de praticar esses atos de gloriosa libertação, ou quando, por exceção, consegue praticar algum deles, logo se sente como um herói, como algum "super", porque esse ato "virtuoso" destoa da sua atitude habitual, e, por isto, lhe parece algo notável e extraordinário. Enquanto o homem vê nesses atos um heroísmo, uma virtude, algo de excepcional, não creou ainda a competente atitude, não cruzou ainda a misteriosa fronteira entre o ego luciférico e o Eu crístico; não é ainda um verdadeiro iniciado, mas, na melhor das hipóteses, um profano de boa vontade.

Não é o simples "querer" que decide – todos os profanos de boa vontade querem – mas é um novo "poder". Muitos podem querer – poucos podem poder. Para que alguém possa, não só querer, mas também poder, é indispensável que tenha recebido uma vida nova, que tenha renascido pelo espírito, que tenha tido a suprema revelação do seu eterno "ser divino" – o seu misterioso "eu e o Pai somos um", ou, em sânscrito: "tat twam asi" (isto, Brahman, és tu). Essa grande revelação da Verdade sobre si mesmo crea no homem a força do poder, uma nova atitude permanente, um novo modo de ser.

Verdade é que todo homem, em virtude da sua natureza humana, da sua "alma naturalmente crística", era sempre essa "nova creatura em Cristo", mas não o era explicitamente, senão, apenas implicitamente; essa "nova creatura em Cristo" estava nele em estado latente, embrionário, meramente potencial;

estava concebida e andava como que em gestação, mais ou menos adiantada ou atrasada, mas não havia nascido ainda atualmente. Em todos os homens existe o Cristo potencial – a "luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo" – mas, enquanto esse Cristo potencial não passar a ser o Cristo atual, podem esses homens querer o bem, mas não o podem realizar; neles está como escreve Paulo de Tarso, o "querer o bem", mas não está o "poder o bem".

Essa transição do débil "querer" para o vigoroso "poder" é um carisma inexplicável, uma graça divina que ninguém pode merecer, embora todos possam e devam preparar o ambiente e crear um clima propício para que essa graça venha.

Esse carisma é algo que nos "acontece" de fora, mas que o homem não "produz" de dentro de si, do seu ego. Esse "acontecer" da graça brota das eternas e ignotas profundezas de Deus – do Deus transcendente, que é o Deus imanente; mas não vem das periferias superficiais do pequeno ego consciente.


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Quando o homem consegue cruzar essa misteriosa fronteira, do pequeno ego humano para o grande Eu divino, então toda a vida dele se transforma e ilumina com inefável força e claridade. Então entra ele num novo céu e numa nova terra. Então vive ele o seu céu aqui mesmo, aqui, agora, e para sempre, e por toda a parte – e o seu inferno não existe mais em parte alguma. Então nada mais o entristece, o molesta, o ofende, o perturba. Então está ele definitivamente liberto pela Verdade, e essa libertação é a sua suprema felicidade.

O que aos profanos de má vontade parece absurdo, o que aos profanos de boa vontade parece doloroso sacrifício e virtude heróica – isto é para os verdadeiros iniciados espontânea facilidade e suprema beatitude. . .

O Sermão da Montanha é a chave da grande e definitiva libertação do homem.

E a última palavra sacra de toda a iniciação esotérica e mística dos candidatos à verdadeira sabedoria e experiência cósmica.

O Sermão da Montanha é um convite para a morte e para a ressurreição, para o ocaso do ego luciférico e para a alvorada do Eu crístico. . .

Aceitar esse convite é vida eterna – rejeitá-lo é morte eterna. . .

Aqui se bifurcam os caminhos da humanidade. . .

Aqui se digladiam, em dramático duelo, as duas maiores potências do Univers " – Lúcifer e Lógos, a magia mental do velho ego, e a sabedoria espiritual do novo Eu. . .

Aqui se alarga o campo da grande tentação, em pleno deserto – entre a política telúrica do tentador: "Eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória" – e a sapiência cósmica do tentado: "O meu reino não é deste mundo". . .

No Everest do Sermão da Montanha se vê todo o indivíduo humano colocado na grande encruzilhada entre o "querer ser servido" do velho ego luciférico – e o "querer servir" do novo Eu crístico. . .

A escolha é livre – mas as consequências da escolha obedecem a uma lei inexorável. . .

A alternativa suprema e última é esta: VIDA – ou MORTE. . .



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