Sermão da Montanha: 154
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"QUEM DENTRE VÓS QUISER SER GRANDE, SEJA O SERVIDOR DE TODOS"
A consciência do homem da Era Atômica é a de "senhor do mundo". Sente-se cada vez mais senhor e soberano do mundo, graças ao poder da sua inteligência. Para ele, o mundo é apenas matéria-prima a que o homem tem de dar forma. E o que o homem da ciência faz com o mundo infra-humano, isto tenta fazer o homem da política com o mundo humano: para ele, o indivíduo humano é material para algo. Todos os totalitários, tanto da direita, como da esquerda, consideram o homem como um meio para alcançarem determinados fins estatais ou políticos, ou, no dizer de Hegel, patrono de todos os totalitários, o indivíduo é "espírito subjetivo", ao passo que o Estado é "espírito objetivo", e, como o objetivo deve dominar sobre o subjetivo, segue-se que o indivíduo deve ser absorvido pelo Estado.
Todos os totalitarismos radicam na ideia do super-homem nietzschiano, isto é, do super-lúcifer, e o seu lema é como diz Nietzsche, "der Wille zur Macht", a vontade de querer dominar. Essa consciência intelectual da soberania, essa orgulhosa autonomia da personalidade do ego físico-mental é a característica de todas as filosofias e políticas empírico-intelectuais. E é esta a razão última por que a verdadeira Filosofia Univérsica, a Filosofia Cósmica do Evangelho, não consegue dominar no seio da humanidade.
À primeira vista, é esse super-humanismo físico-mental que confere real grandeza e felicidade ao homem!
Na realidade, porém, é esta a mais funesta ilusão do homem de todos os tempos.
Superar definitivamente essa ilusão secular e multimilenar – é esta a missão central e suprema da verdadeira filosofia.
A verdadeira grandeza e felicidade do homem está no fato de ele se saber e sentir servidor de algo superior a ele. Esta consciência de servidão e de serviço voluntário enche o homem de uma profunda reverência e sacralidade, e por isto de uma felicidade tão intensa e sólida que nenhum homem, no trono da sua complacente soberania, jamais experimentou, nem pode experimentar beatitude igual.
É a grandeza do SER, contrastando com a pequenez do TER.
Com efeito, o homem cósmico não se sente como alguém que faça grandes coisas, mas como alguém através do qual grandes coisas são feitas, se ele o permitir. Mas esse "permitir" consiste precisamente na vontade de querer servir. A vontade de querer dominar, ou ser servido, não permite que grandes coisas sejam feitas através do homem, porque não estabelece um ambiente de receptividade, um clima propício para o advento dessa grandeza.
Essa espontânea passividade, essa inteira obediência ao imperativo categórico de uma Autoridade Cósmica, essa jubilosa subordinação a uma Razão Transcendente – enchem o homem de uma tranquilidade tão profunda e de uma beatitude tão inebriante que todas as orgulhosas soberanias do homem profano, ávido de dominar, empalidecem como ridículos brinquedos de criança.
Quando o homem convalesce finalmente da sua longa doença de querer ser servido, para a vigorosa saúde de querer servir, é então que, pela primeira vez, ele se sente plenamente adulto e maduro para o seu grande destino, aqui no mundo e em todos os mundos.
Eu sou um servidor incondicional do misterioso Espírito que rege o Universo! – que fascinante consciência de poder e de dignidade!
Homem realmente penetrado desta consciência nunca mais poderá duvidar da sua imortalidade, porque a vontade de servir que ele tem hoje e aqui o acompanhará necessariamente através de todos os mundos e de todos os tempos. Pode perecer a pequena vontade ou veleidade de querer ser servido – mas nunca pode perecer a grande vontade de querer servir.
Um espontâneo e jubiloso querer-servir é imortalidade.
A filosofia empírico-intelectualista do Ocidente parece enxergar grandeza quase exclusivamente na violência, na força bruta, no fato de o homem dominar, em submeter certas energias da natureza a seu domínio – mas isto não desmente a verdade de que os maiores homens da história, os homens eternos no tempo e no espaço – desde Buda e Lao-Tsé até Jesus, Francisco de Assis, Tolstoi, Gandhi, Schweitzer e outros – tenham encontrado a suprema grandeza e a plenitude da felicidade em servirem voluntariamente ao Poder Infinito através de seus representantes finitos.
O que o homem faz quando quer dominar é atividade de seu ego consciente – e o que este faz e pode fazer é sempre pequeno e violento.
Mas o que é feito através do homem quando ele quer servir é atividade do seu Eu superconsciente e o que este faz é sempre grande e suave, dinamicamente suave. É por essa mansidão dinâmica que ele "possui a terra", porque se possui a si mesmo. E quem se possui plenamente, sem ser possuído por nada, esse possui todas as coisas.
A princípio, esse querer-servir parece fraqueza, pequenez, empobrecimento – até que o homem descobre, finalmente, que esse querer-servir é grandeza, força e riqueza.
De maneira que a verdadeira e única grandeza nasce espontaneamente do querer-servir, espontânea e jubilosamente. "Quem dentre vós quiser ser grande seja o servidor de todos!"
Mas, para que o homem possa compreender tão estranha sabedoria, diametralmente oposta a todos os padrões da vida atual, deve ele ter ultrapassado uma fronteira dentro de si mesmo, fronteira de que o homem profano nada sabe, ou na qual apenas crê vagamente. E este não saber é a sua pequenez e a sua infelicidade.
Com o cruzamento real dessa misteriosa fronteira dentro de si mesmo, entra o homem numa vida nova, tão rica e abundante que as mais deslumbrantes realidades da sua vida anterior lhe parecem extrema pobreza, ignorância e infelicidade.
Quando o homem desce ao ínfimo nadir de uma voluntária servidão e jubiloso serviço – então é que ele sobe ao supremo zênite da verdadeira soberania.
Só é realmente senhor aquele que voluntariamente se faz servidor.
E então compreenderá ele a verdade oculta das palavras do Mestre: "Há mais felicidade em dar do que em receber". "Quem dentre vós quiser ser grande, seja o servidor de todos".
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