TESOUROS LIBERTADORES
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JUSTIÇA E AMOR
As leis antigas inviavelmente conduziam o sentimento primitivo do desforço, em sórdidos espetáculos de vingança doentia.
Confundia-se a necessidade de retificação do erro com o impositivo da punição perversa, pois que não se tinha em conta que o infrator perdera o endereço de si mesmo e caminhava emocionalmente por vias tortuosas.
Recorrendo-se ao Velho Testamento, por exemplo, em breve reflexão, podemos ler em Lameque, no 4 23 e 24, a triste conceituação de justiça exarada na vingança ilimitada.
Lameque, segundo o mito bíblico, era bisneto de Caim, de tormentosa memória.
Em diálogo mantido com as duas mulheres com as quais convivia, vangloriava-se, ao explicar: — (...) Pois matei um homem por me ferir e um mancebo por me pisar. Se Caim há de ser vingado sete vezes, com certeza Lameque o será setenta e sete vezes...
Ante conceito arbitrário desse porte em torno de uma justiça lavrada no ódio e no espírito de vingança contra o outro, mais tarde, Moisés, através do Decálogo, fixando-se de alguma forma na Lei de Talião, refunde-a, limitando a justiça ao nível da ofensa, à cobrança legal de acordo com o delito perpetrado: olho por olho, dente por dente, braço por braço...
Embora a severidade que nela se acerca da crueza do sentimento, vige a diminuição da desforra primitiva, em não liberar o criminoso de qualquer natureza, ao mesmo tempo facultar-lhe qualquer tipo de privilégio.
Desde que o indivíduo haja cometido um delito, automaticamente se lhe inscreve no íntimo a necessidade retributiva, a fim de resgatar conscientemente de acordo com a ação deletéria praticada.
Sem dúvida, a legislação de tal e qual representa ainda ausência do sentimento de humanidade.
Coube, porém, ao incomparável Rabi galileu a legislação trabalhada na indefectível Lei de Amor, na qual a misericórdia compadece-se do infrator e faculta-lhe a reabilitação moral.
Ínsito na consciência o amor, quando asselvajado, responde pelos dislates a que a criatura se permite, e deixa-se minar pela soberba e prepotência, que andam juntas, em olvido da própria fragilidade de que se constitui.
Na larga viagem do instinto para a razão há predomínio dos automatismos primários que se corrigem com as experiências, enquanto se abrem as possibilidades para a conquista da angelitude.
Em razão de haver sido muito longo o período inicial para o desenvolvimento moral, é compreensível que se haja fixado o hábito de reagir, para depois tornar-se ação com os componentes da razão e do sentimento que desabrocham em forma de afabilidade.
A partir daí, torna-se mais factível e rápido o processo transformador e iluminativo.
A matéria que predomina na conduta psicológica cede passo ao sentimento ético que proporciona harmonia emocional e, por consequência, saúde integral.
Jamais te coloques na condição doentia do prepotente Lameque, credor de valores que realmente não possuía.
A ninguém é concedido o direito de ceifar uma existência
humana sob qualquer justificativa em que se apoie, que será sempre filha do egoísmo.
Considera a insignificância do fato de alguém pisar no pé de outrem ou no teu, e constatarás que esse não é um motivo para que se use a adaga mortífera.
A terra hospeda enfermos de variada gênese, especialmente portadores do primarismo que neles predomina com vigor.
Quando luz a claridade do amor no âmago do ser, a ofensa, mesmo grave, transforma-se em catarse de desespero na faixa em que ele estagia.
Quando te escasseie o sentimento do amor pleno como terapia de emergência, que te utilizes da misericórdia, compreendas a situação inglória do outro e tentes perdoá-lo. No entanto, se o gravame apresentar-se superior à tua capacidade de imediato perdão, recorre à compreensão, desculpa o agressor infeliz que se encontra em surto de loucura e não se dá conta.
Nunca, porém, permitas, quando agredido, direitos e privilégios que Jesus, que era justo e inocente, não se arrogou como precedente.
Certamente não advogamos em favor da agressividade, da ingratidão, dos disparates, dos comportamentos arbitrários que deverão passar pelos códigos que facultam o equilíbrio do cidadão conforme as conquistas ético-morais já alcançadas por alguns segmentos sociais.
Dia chegará em que o amor soberano legislará com igualdade para todos, suprindo-os com os requisitos elevados do dever direcionado à sociedade saudável.
Buscar desculpas legais para a vingança, jamais!
Pessoa alguma foge da consciência e, por extensão, da Justiça Divina, que a tudo e a todos observa, controla e direciona.
A jornada poderá, não poucas vezes, parecer áspera, mas será
assim que se alcançará o acume da montanha da evolução.
No Código penal da vida futura, o egrégio codificador do Espiritismo propõe um projeto de justiça equânime e cristã, apoiada na Lei de Causa e Efeito, iluminada pelo amor no seu significado ético mais elevado.
Desse modo, busca ser justo e afável, estabelecendo, desde hoje, os pródromos da era de justiça com caridade e misericórdia, atenuando ou mesmo eliminando a vingança.
Veja mais em...
Gênesis 4:24
Porque sete vezes Caim será vingado; mas Lameque setenta vezes sete.
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