Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867
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Janeiro - Variedades
“A fé robusta das pessoas que a despeito de tudo acreditam em todas as maravilhas tantas vezes desmentidas do Espiritismo é uma verdade admirável. Mostram-lhes o truque das mesas girantes e elas creem; desvendam-lhes as imposturas do armário Davenport e elas creem mais; exibem-lhes todos os cordões, fazem-nas tocar a mentira com o dedo, furam-lhes os olhos pela evidência do charlatanismo e sua crença se torna mais obstinada. Inexplicável necessidade do impossível! Credo quia absurdum.
“O Messager franco-américan, de Nova Iorque, fala de uma convenção dos adeptos do Espiritismo realizada em Providence (Rhode-Island). Homens e mulheres se distinguem por um aspecto do outro mundo; a palidez da pele, a magreza do rosto, o profético devaneio dos olhos, perdidos num vago oceânico, tais são, em geral, os sinais exteriores do espírita. Acrescente-se que, contrariamente ao uso geral, as mulheres cortam o cabelo curto, à la mal-content, como se dizia outrora, ao passo que os homens têm uma cabeleira abundante, absalônica, longa, descendo até as espáduas. Quando se trata com os espíritas, há que se distinguir do comum dos mortais, da vil multidão.
“Muitos discursos, discursos demais, foram pronunciados. Os oradores, sem se preocuparem mais com os desmentidos da Ciência do que com os do senso comum, imperturbavelmente lembraram a longa série, que cada um sabe de cor, dos fatos maravilhosos atribuídos ao Espiritismo.
“Miss Susia Johnson declarou que, sem querer ser tomada como profetiza, previa que estão próximos os tempos em que a grande maioria dos homens não mais será rebelde às místicas revelações da religião nova. Ela apela com todos os seus votos para a criação de numerosas escolas, onde as crianças de ambos os sexos beberão, desde a mais tenra idade, os ensinamentos do Espiritismo. Só faltava isto!”
Sob o título de Sempre os Espíritas! o Événement de 26 de agosto de 1866 publicou um longo artigo, do qual extraímos esta passagem:
“Fostes alguma vez a uma reunião de espíritas, numa noite de desocupação e de curiosidade? Geralmente um amigo vos conduz. A gente sobe muito ─ os Espíritos gostam de aproximar-se do céu ─ para um pequeno apartamento já repleto. Entra-se às cotoveladas.
“As pessoas se amontoam, com suas feições bizarras e gestos de energúmenos. Fica-se abafado nessa atmosfera. Comprimem-se, curvam-se sobre as mesas onde médiuns, com os olhos no teto, lápis na mão, escrevem as elucubrações que passam por lá. De começo é uma surpresa. Procuram entre todas essas pessoas repousar o olhar. Interrogam, adivinham, analisam.
“Velhas de olhos ávidos, jovens magros e fatigados, a promiscuidade das classes e das idades, porteiras da vizinhança e grandes damas do bairro, de chita e de guipuras, poetizas por acaso e profetizas de encontro, alfaiates e laureados do Instituto confraternizam-se no Espiritismo. Esperam, fazem girar as mesas, levantam-nas, leem em voz alta as baboseiras que Homero ou Dante ditaram aos médiuns sentados. Esses médiuns estão imóveis, a mão sobre o papel, sonhando. De repente a mão se agita, corre, sacode, cobre as folhas, vai, vai mais e para bruscamente. Então alguém, no silêncio, diz o nome do Espírito que acaba de ditar e lê. Ah! Essas leituras!
“Assim ouvi Cervantes lamentar a demolição do teatro dos Déllassements-Comiques e Lamennais contar que Jean Journet lá era seu amigo íntimo. A maior parte do tempo Lamennais comete erros de ortografia e Cervantes não sabe uma palavra de espanhol. Outras vezes os Espíritos tomam um pseudônimo angélico para brindar o seu público com algum apotegma à maneira de Pantagruel. Reclamam. Respondem-lhes: Nós nos queixaremos ao vosso cabeça de fila!
“O médium que traçou a frase se fecha e se zanga por estar em relação com Espíritos tão desbocados. Perguntei a que legião pertenciam esses mistificadores do outro mundo e me responderam no duro: ─ São Espíritos vadios!
“Sei de coisas mais amáveis. Por exemplo, o Espírito desenhista que impulsionou a mão do Sr. Victoren Sardou, e o fez traçar o desenho da casa em que mora Beethoven lá em cima. Profusão de folhagem, entrelaçamento de colcheias e semicolcheias, é um trabalho de paciência que exigiria meses e foi feito numa noite. Foi isto que me disseram. Só o Sr. Sardou poderia convencer-me.
“Pobre cérebro humano! Como estas coisas são dolorosas para contar! Assim, não demos um passo para o lado da Razão e da Verdade! Ou, pelo menos, o batalhão de ronceiros engrossa dia a dia, à medida que se avança! É formidável, é quase um exército. Sabeis quantas possessas há atualmente na França? Mais de duas mil.
As possessas têm sua presidente, a Sra. B..., que desde a idade de dois anos vive em relação direta com a Virgem. Duas mil! O Auvergne guardou seus milagres, as Cévennes têm sempre seus camisards. Os livros de Espiritismo, os tratados de misticismo, têm sete, oito, dez edições. O maravilhoso é mesmo a doença de um tempo que, nada tendo diante do espírito para se satisfazer, refugia-se nas quimeras, como um estômago vazio e privado de carne que se alimentasse de gengibre.
“E o número dos loucos aumenta! O delírio é como uma onda que sobe. Então, que luz há que ser achada, para destruir essas trevas, já que a eletricidade não basta?
“JULES CLARETIE.”
Na verdade seria erro zangar-se com tais adversários, pois acreditam com tanta boa-fé e tão ingenuamente ter o monopólio do bom-senso! O que é tão divertido quanto os singulares retratos que fazem dos espíritas, é vê-los gemer dolorosamente por esses pobres cérebros humanos que não dão nenhum passo para o lado da razão e da verdade, porque querem à fina força ter uma alma e acreditar no outro mundo, a despeito do desperdício de eloquência dos incrédulos, para provar que isto não existe, para a felicidade da Humanidade; são seus pesares à vista desses livros espíritas que se esgotam sem recorrer a anúncios, reclames e elogios pagos da imprensa; deste batalhão de ronceiros da razão que, coisa desesperadora! cresce diariamente e se torna tão formidável que é quase um exército; que nada tendo diante do espírito para satisfazê-los, são bastante tolos para recusar a perspectiva do nada que lhes oferecem para encher o vazio. É realmente de desesperar desta pobre Humanidade, bastante ilógica para não preferir o nada em troca de alguma coisa, para gostar mais de reviver do que morrer de vez.
Estas facécias, essas imagens grotescas, mais divertidas que perigosas, e que seria infantil levar a sério, têm seu lado instrutivo, e por isto citamos alguns exemplos. Outrora procuravam combater o Espiritismo com argumentos, sem dúvida maus, pois a ninguém convenceram, mas, enfim, tentavam discutir a coisa, bem ou mal. Homens de real valor, oradores e escritores, cavaram um arsenal de objeções para combatê-lo. Qual foi o resultado? Seus livros estão esquecidos e o Espiritismo está de pé. Eis o fato. Hoje ainda há alguns trocistas com a força dos que acabamos de citar, pouco preocupados com o valor dos argumentos para quem rir de tudo é uma necessidade, mas não mais se discute; a polêmica adversa parece ter esgotado suas munições. Os adversários se contentam em lamentar o progresso do que chamam uma calamidade, como lamentam pelo progresso de uma inundação que não podem deter. Mas as armas ofensivas para combater a Doutrina não deram um passo à frente, e se ainda não acharam o fuzil de guerra para abatê-lo não foi por não o terem procurado.
Seria trabalho inútil refutar coisas que se refutam por si mesmas. Às lamentações com que o Jornal France precede o burlesco retrato que toma do jornal americano, só há uma coisa a responder. Se a fé dos espíritas resiste à revelação dos truques e dos cordões do charlatanismo, é que isto não é o Espiritismo; se quanto mais são descobertas as manobras fraudulentas, mais redobra a fé, é que esgrimis para combater precisamente o que ele desaprova e que ele próprio combate; se eles não se abalam com as vossas demonstrações, é que tangenciais a questão; se quando feris o Espiritismo ele não grita, é que feris de lado e então os trocistas não estão do vosso lado. Desmascarando os abusos que fazem de uma coisa, fortalece-se a própria coisa, assim como se fortalece a verdadeira religião estigmatizando os abusos. Só aqueles que vivem dos abusos podem lastimar-se, tanto em Espiritismo quanto em religião.
Contradição mais estranha! Os que pregam a igualdade social veem, sob o império das crenças espíritas, os preconceitos de casta se apagarem, as camadas extremas se reaproximarem, o grande e o pequeno se darem as mãos fraternalmente, e eles riem! Em verdade, lendo essas coisas, pergunta-se de que lado está a aberração.
Outubro DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS
I.
(Paris, † 12 de março de 1867. – Grupo Desliens. – Médium: Sr. Desliens.)
Como já vos foi dito muitas vezes nas diferentes instruções, a mediunidade curadora, juntamente com a faculdade de vidência, é chamada a desempenhar um grande papel no período atual da revelação. São os dois agentes que cooperam com a maior força na regeneração da Humanidade e na fusão de todas as crenças numa crença única, tolerante, progressiva, universal.
Recentemente, quando me comuniquei numa reunião da Sociedade, onde me haviam evocado, disse e o repito: todo o mundo possui mais ou menos a faculdade curadora, e se cada um quisesse consagrar-se seriamente ao estudo dessa faculdade, muitos médiuns que se ignoram poderiam prestar úteis serviços aos seus irmãos em humanidade. Então o tempo não me permitiu desenvolver todo o meu pensamento a esse respeito; aproveitarei o vosso apelo para fazê-lo hoje.
Em geral os que buscam a faculdade curadora têm como único desejo obter o restabelecimento da saúde material, restituir a liberdade de ação a tal órgão, impedido nas suas funções por uma causa material qualquer. Mas, sabei-o bem, é o menor dos serviços que esta faculdade é chamada a prestar, e só a conheceis em suas primícias e de maneira completamente rudimentar, se lhe conferis este único papel… Não, a faculdade curadora tem uma missão mais nobre e mais extensa!… Se pode restituir aos corpos o vigor da saúde, também deve dar às almas toda a pureza de que são susceptíveis, e é somente neste caso que poderá ser chamada curativa, no sentido absoluto da palavra.
Muitas vezes vos disseram, e vossos instrutores nunca vo-lo repetiriam em demasia, que o aparente efeito material, o sofrimento, quase sempre tem uma causa mórbida imaterial, residindo no estado moral do Espírito. Se, pois, o médium curador ataca o corpo, não ataca senão o efeito; permanecendo a causa primeira do mal, o efeito pode reproduzir-se, quer sob a forma primordial, quer sob outra aparência qualquer. Muitas vezes aí está uma das razões pelas quais tal doença, subitamente curada pela influência de um médium, reaparece com todos os seus acidentes, desde que a influência benfazeja se afaste, porque não resta nada, absolutamente nada para combater a causa mórbida.
Para evitar essas recidivas, é preciso que o remédio espiritual ataque o mal em sua base, como o fluido material o destrói em seus efeitos; numa palavra, é preciso tratar, ao mesmo tempo, o corpo e a alma.
Para ser bom médium curador, não só é preciso que o corpo esteja apto a servir de canal aos fluidos materiais reparadores, mas, ainda, que o Espírito possua uma força moral, que só pode adquirir por seu próprio melhoramento. Para ser médium curador é preciso, pois, preparar-se não só pela prece, mas pela depuração de sua alma, a fim de tratar fisicamente o corpo pelos meios físicos, e de influenciar a alma pela força moral.
Uma última reflexão. Aconselham-vos que busqueis de preferência os pobres, que não têm outros recursos além da caridade do hospital. Não é esta absolutamente a minha opinião. Jesus dizia que o médico tem por missão cuidar dos doentes e não dos que gozam de boa saúde. Lembrai-vos de que na questão de saúde moral, há doentes por toda parte, e que o dever do médico é ir a toda parte onde o seu socorro é necessário.
Abade Príncipe de Hohenlohe.
II.
(Sociedade de Paris, 15 de março de 1867. – Médium: Sr. Desliens.)
Numa comunicação recente, eu falava da mediunidade curadora, de um ponto de vista mais largo do que o que foi considerado até agora, e a fazia consistir antes no tratamento moral que no tratamento físico dos doentes, ou, pelo menos, reunia esses dois tratamentos num só. Pedirei me permitais dizer algumas palavras a esse respeito.
O sofrimento, a doença, a própria morte, nas condições sob as quais as conheceis, não são mais especialmente a partilha dos mundos habitados pelos Espíritos inferiores, ou pouco adiantados? O desenvolvimento moral não tem por objetivo principal conduzir a Humanidade à felicidade, fazendo-a adquirir conhecimentos mais completos, desembaraçando-a das imperfeições de toda natureza, que retardam sua marcha ascensional para o infinito? Ora, melhorando o Espírito dos doentes, não se os põe em melhores condições para suportarem seus sofrimentos físicos? Atacando os vícios, as más inclinações, que são a fonte de quase todas as desorganizações físicas, não se põem essas desorganizações na impossibilidade de se reproduzirem? Destruindo a causa, necessariamente se impede o efeito de se manifestar novamente.
A mediunidade curadora pode, pois, comportar duas formas; e essa faculdade não estará em seu apogeu, nos que a possuem, senão quando reunirem em si essas duas maneiras de ser. Ela pode compreender unicamente o alívio material dos doentes e, então, se dirige aos encarnados; pode compreender a melhora moral dos indivíduos e, neste caso, se dirige tanto aos Espíritos quanto aos homens; enfim, ela pode compreender o melhoramento moral e o alívio material: neste caso, tanto a causa quanto o efeito poderão ser combatidos vitoriosamente. Efetivamente, em que consiste o tratamento dos Espíritos obsessores, senão numa espécie de influência semelhante à mediunidade curadora, exercida conjuntamente por médiuns e Espíritos sobre uma personalidade desencarnada?
Assim, a mediunidade curadora abrange ao mesmo tempo a saúde moral e a saúde física, o mundo dos encarnados e o dos Espíritos.
Abade Príncipe de Hohenlohe.
III.
(Paris, 24 de março de 1867. – Médium: Sr. Rul.)
Venho continuar a instrução que dei a um médium da Sociedade. Por que duvidáveis que eu tivesse vindo ao vosso apelo? Não sabeis que um Espírito bom se sente sempre feliz por ajudar os seus irmãos da Terra na via do melhoramento e do progresso?
Hoje conheceis o que eu disse do considerável papel reservado à mediunidade curadora; sabeis que, conforme o estado de vossa alma e as aptidões do vosso organismo, podeis, se Deus vo-lo permitir, tanto curar as dores físicas quanto os sofrimentos morais, ou ambos. Duvidais se sois capaz de fazer uma ou outra, porque conheceis as vossas imperfeições; mas Deus não exige a perfeição, a pureza absoluta aos homens da Terra. A esse título, ninguém entre vós seria digno de ser médium curador. Deus pede que vos melhoreis, que façais esforços constantes para vos purificardes, e vos leva em conta a vossa boa vontade.
Já que desejais seriamente aliviar os vossos irmãos que sofrem física e moralmente, tende confiança, esperai que o Senhor vos conceda esse favor. Mas, repito-o, não sejais exclusivos na escolha dos vossos doentes; todos, quaisquer que sejam, ricos ou pobres, crentes ou incrédulos, bons ou maus, todos têm direito ao vosso socorro. Será que o Senhor priva os maus do calor benfazejo do Sol, que aquece, reanima e vivifica? Será que a luz é recusada a quem quer que não se prosterne diante da bondade do Todo-Poderoso? Curai, pois, quem quer que sofra e aproveitai o bem que trouxestes ao corpo para purificar a alma ainda mais sofredora e ensinai-lhe a orar. Não vos aborreçais pelas recusas que encontrardes; fazei sempre vossa obra de caridade e de amor e não duvideis que o bem, embora retardado por uns, jamais ficará perdido. Melhorai-vos pela prece, pelo amor do Senhor, de vossos irmãos, e não duvideis que o Onipotente não vos dê as ocasiões frequentes de exercer vossa faculdade mediúnica. Sede felizes quando, após a cura, vossa mão apertar a do vosso irmão reconhecido; e que ambos, prosternados aos pés de vosso Pai celestial, possais orar juntos para o agradecer e o adorar. Mais feliz ainda quando, acolhido pela ingratidão, depois de ter curado o corpo, mas impotente para curar a alma endurecida, elevardes o vosso pensamento para o Criador, pois vossa prece será a primeira centelha destinada a acender mais tarde o facho que brilhará aos olhos do vosso irmão curado de sua cegueira, e direis a vós mesmos que quanto mais um doente sofre, tanto mais atenção lhe deve dar o médico.
Coragem, irmão; esperai e aguardai que os Espíritos bons, que vos dirigem, vos inspirem quando começardes a aplicação de vossa nova faculdade mediúnica, junto aos vossos irmãos que sofrem. Até lá orai, progredi pela caridade moral, pela influência do exemplo, e jamais deixeis fugir a menor ocasião de esclarecer os vossos irmãos. Deus vela sobre cada um de vós, e aquele que hoje é o mais incrédulo, amanhã poderá ser o mais fervoroso e o mais crente.
Abade Príncipe de Hohenlohe.
Agosto VARIEDADES
Os médicos e os internos do Hospital da Caridade † receberam sábado, durante a visita da manhã, um de seus confrades americanos, a quem a última guerra da América deu certa reputação.
Esse doutor em Medicina não era outro senão a Sra. Walker, que, durante a guerra da secessão nos Estados Unidos, dirigiu um importante serviço de ambulâncias. Pequena, de compleição delicada, vestida com a elegante simplicidade que distingue as damas da sociedade, a senhora Walker foi recebida com grande simpatia e mui respeitosamente. Interessou-se vivamente nos dois grandes serviços, o cirúrgico e o médico.
Sua presença no Caridade proclamava um princípio novo, que recebeu sua consagração no Novo Mundo: a igualdade da mulher perante a Ciência.
(Opinion nationale.)
(Ver a Revista de junho de 1867 e janeiro de 1866, sobre a emancipação das mulheres.)
Maio DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS
Estou aqui, feliz por vir saudar-vos, encorajar-vos e vos dizer:
Irmãos, Deus vos cumula de benefícios, permitindo-vos nestes tempos de incredulidade que respireis a plenos pulmões o ar da vida espiritual, que sopra com vigor através das massas compactas. Crede em vosso antigo associado, crede em vosso amigo íntimo, vosso irmão pelo coração, pelo pensamento e pela fé; crede nas verdades ensinadas: elas são tão seguras quanto lógicas; crede em mim que, há alguns dias, me contentava, como vós, em crer e esperar, ao passo que hoje a doce ficção é para mim uma imensa e profunda verdade. Toco, vejo, existo, possuo; portanto, esta vida é real; analiso minhas impressões de hoje e as comparo com as ainda recentes, da véspera.
Não só me é permitido comparar, sintetizar, avaliar minhas ações, meus pensamentos, minhas reflexões, julgá-las pelo critério do bom-senso, mas as vejo, as sinto, sou testemunha ocular, sou a coisa realizada. Não são mais consoladoras hipóteses, sonhos dourados, esperanças; é mais que uma certeza moral: é o fato real, palpável, o fato material que se toca, que vos toma sob sua forma tangível, e que nos diz: isto é.
Aqui tudo respira calma, sabedoria, felicidade; tudo é harmonia, tudo diz: eis o sumo do senso íntimo; não mais quimeras, falsas alegrias, temores pueris, falsa vergonha, dúvidas, angústias, perjúrios, nada desse cortejo vil de fabulosas dores, de erros grosseiros, como se vê diariamente na Terra.
Aqui se é penetrado de uma quietude inefável; admira-se, ora-se, adora-se, rendem-se ações de graça ao sublime autor de tantos benefícios; estuda-se e se entreveem todas as potências infinitas; vê-se o movimento das leis que regem a Natureza. Cada obra tem uma finalidade, que conduz ao amor, diapasão da harmonia geral. Vê-se o progresso progredir a todas as transformações físicas e morais, porque o progresso é infinito como Deus, que o criou. Tudo é compreensível; nada de abstrações: toca-se com o dedo e a razão o porquê das coisas humanas. As legiões espirituais adiantadas só têm um objetivo, o de se tornarem úteis a seus irmãos atrasados, para os elevar para elas.
Trabalhai, pois, sem cessar, conforme vossas forças, meus bons irmãos, para vos melhorardes e serdes úteis aos vossos semelhantes; não só fareis dar um passo a doutrina que é vossa alegria, mas tereis contribuído poderosamente ao progresso do vosso planeta; a exemplo do grande legislador cristão, sereis homens, homens de amor, e concorrereis para implantar o reino de Deus sobre a Terra.
Aquele que é ainda e mais que nunca vosso condiscípulo.
Leclerc.
Observação. – Tal é, com efeito, o caráter da vida espiritual; mas seria um erro crer que basta ser Espírito para a encarar deste ponto de vista. Dá-se com o mundo espiritual o que sucede com o mundo corporal: para apreciar as coisas de uma ordem elevada, é necessário um desenvolvimento intelectual e moral que não é peculiar senão aos Espíritos adiantados; os Espíritos atrasados são estranhos ao que se passa nas altas esferas espirituais, como o eram na Terra naquilo que constitui a admiração dos homens esclarecidos, porque não o podem compreender. Como seu pensamento circunscrito num horizonte limitado não pode abarcar o infinito, não podem ter os prazeres que resultam do alargamento da esfera de atividade espiritual. A soma de felicidade, no mundo dos Espíritos, aí está, pois, pela força das coisas, em razão do desenvolvimento do senso moral, de onde resulta que, trabalhando na Terra por nosso melhoramento e nossa instrução, aumentamos as fontes de felicidade para a vida futura. Para o materialista, o trabalho só tem um resultado limitado à vida presente, que pode acabar de um instante para outro; o espírita, ao contrário, sabe que nada do que adquire, mesmo à última hora, é uma pura perda, e que todo progresso realizado lhe será proveitoso.
As profundas considerações de nosso antigo colega, Sr. Leclerc, sobre a vida espiritual, são, pois, uma prova de seu adiantamento na hierarquia dos Espíritos, pelo que o felicitamos.